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As conexões de "As Horas" com a obra de Virginia Woolf
Ensaio de Myrna Silveira Brandão
Filme de Daldry traz a obra da escritora inglesa para as telas

As Horas (The Hours), do diretor americano Stephen Daldry, é uma adaptação do livro homônimo de Michael Cunningham ganhador do Prêmio Pulitzer, o maior tributo da literatura nos Estados Unidos. O livro tem como centro a obra da escritora Virgínia Woolf (1822-1941) e para chegar às telas, a obra foi roteirizada pelo dramaturgo David Hare.
Daldry traz no seu currículo o aclamado Billy Elliot, seu filme de estréia e pelo qual foi indicado ao Oscar em 2001. No elenco estelar de As Horas, Nicole Kidman interpreta a escritora inglesa Virginia Woolf; Julianne Moore vive Laura Brown, uma dona de casa desglamourizada e sofrida; Meryl Streep faz o papel da editora Clarissa Vaughn; e Ed Harris interpreta Richard, um poeta famoso.
A trama de As Horas se desenvolve através de várias conexões com o livro Mrs. Dalloway, publicado por Woolf em 1925 e considerado sua obra prima. Essas conexões são estabelecidas através de um cruzamento de situações ocorridas em várias épocas. Uma delas, se refere a Laura, num ótimo desempenho de Moore, uma mulher obcecada em ler o livro Mrs. Dalloway. Tremendamente infeliz, após separar-se de seu marido, um ex-combatente da Segunda Guerra, a angustiada Laura tem pensamentos suicidas, numa clara alusão à Woolf, que sofria de crises de depressão e realmente suicidou-se. O marido de Laura é vivido por John C. Reilly e dá o seu recado de forma brilhante. Outra conexão com Woolf ocorre com a personagem de Meryl Steep, Clarissa, o mesmo nome da heroína de Mrs. Dalloway. Clarissa é uma mulher que não hesitava em assumir sua bi-sexualidade e viver um romance com escritor Richard, que sofre de Aids. "Acho que o papel contribuiu para ajudar as pessoas que têm Aids. Para isso, procurei mostrar a importância dessas pessoas viverem com dignidade", disse Harris na coletiva no Festival de Berlim, à qual também compareceram a atriz Nicole Kidman e o diretor. A terceira conexão e certamente a mais direta com a obra de Woolf vem através do personagem de Nicole Kidman, que precisou utilizar uma pesada maquiagem para ficar parecida com a escritora inglesa. Nicole, irreconhecível no filme, é retratada como Woolf no período em que ela estava escrevendo Mrs. Dalloway. 
Na entrevista, a atriz achou muita graça quando um jornalista perguntou se o personagem foi uma terapia para ela: "além da satisfação que me deu, posso dizer que também foi terapêutico. Na verdade, papéis caem no colo da gente e às vezes é aquele que você está precisando no momento", disse Nicole que ganhou o Oscar de melhor atriz pelo excelente desempenho como a sofrida e angustiada escritora. A conexão mais forte, no entanto, com a obra foi o enfoque dado à adaptação para as telas. A exemplo do que acontece com o livro, no filme a vida e o pensamento dos personagens são apresentados de forma dispersa e atemporal (os "fluxos de consciência"), como Woolf gostava de escrever e como normalmente ocorre na vida real.

Daldry declarou que foi muito gratificante adaptar a obra de Cunningham para as telas;" "A música dele foi perfeita, não complicou e nem tornou acomo Woolf gostava de escrever e como normalmente ocorre na vida real. trama mais melodramática do que já era", afirmou, complementando que foram tentadas diversas trilhas e nenhuma tinha dado certo.O diretor tem razão: a trilha de Glass é perfeitamente adequada ao filme e é mais um ponto positivo para a bela adaptação de Daldry do livro de Cunningham, esse também uma digna referência à obra de Woolf.
Myrna Silveira Brandão, 20.06.03
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