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A realidade a toda prova
Myrna Silveira Brandão
O diretor francês Laurent Cantet escolheu a realidade da vida como tema principal de seus filmes, procurando sempre abordar ou se inspirar em histórias que aconteceram ou podem vir a acontecer.
Na sua estréia em longas – Recursos Humanos (Resources Humaines) – um dos seus filmes mais elogiados e premiados, Cantet conta a história de um estagiário que, contratado para trabalhar numa empresa, acaba sendo indiretamente um dos responsáveis pela demissão de seu próprio pai, antigo funcionário da fábrica. A Agenda, por sua vez, impressiona pela veracidade com que descreve o drama de um homem que acaba de ser demitido, perde suas referências e acaba dominado por atos absurdos.
Entre Les Murs, seu novo trabalho, filme de abertura da 46ª edição do Festival de Nova York, ganhou a Palma de Ouro em Cannes, tendo vencido concorrentes de peso como Atom Egoyan, Clint Eastwood, Steven Soderbergh, Wim Wenders e outros. Baseado no livro homônimo de François Bégaudeau, Entre Les Murs, tendo como pano de fundo uma turma de alunos numa escola da França, traz algumas lúcidas reflexões sobre o valor da democracia, o respeito e os requisitos éticos do processo educativo. Através de um misto de realidade e ficção, o filme fala dos problemas e conflitos dos alunos de uma escola situada em um bairro francês, onde a população é predominantemente composta de imigrantes. Procurando seguir os princípios propostos no título do seu trabalho, Cantet tenta seguir o perímetro marcado pelos muros do instituto, lugar em que o professor François, se dedica ao seu trabalho, de pedagogo e tutor, na dura busca de conviver com alunos marcados pelos estigmas de sua condição social. 
Cantet, um homem muito tranqüilo, explica que ao abordar temas ligados ao mundo conturbado de hoje, procura ser mais uma voz para mostrar como determinadas práticas nas relações podem afetar pessoas, suas famílias, suas vidas e influir na sociedade como um todo. “Eu tento nunca julgar as pessoas retratadas nos meus personagens. Ao contrário, eu quero mostrar quão complexa são suas vidas. Na verdade, eu tenho uma grande empatia com elas porque eu acho que nós todos dividimos um tipo de paradoxo que é propagarmos o que pensamos e depois fazer coisas que não nos orgulhamos muito”, afirma.
Classificando-se também como um trabalhador que exerce seu ofício através do cinema, Cantet busca pesquisar o que o trabalho significa para cada pessoa e como ele pode influir na construção de sua personalidade. Por isso procura sempre trabalhar com amadores , a fim de que eles passem sua vivência para os personagens.
Como nos seus filmes anteriores, Cantet se mostra um exímio diretor de atores que, em Entre Les Murs, têm um ótimo desempenho, principalmente os alunos que compõem aquela turma transitando entre o tênue limite da normalidade e uma explosão iminente. “O mundo está em constante mudança, mas os problemas, a busca de soluções e a própria vida continuam”, afirma Cantet, que já está trabalhando num novo projeto – Heading South – uma história passada no Haiti. “Muitos haitianos me disseram que é a primeira vez que um diretor branco e francês faz um filme sobre seu País sem compaixão e sem culpa. Estou muito orgulhoso disso”, diz afirmando que as coisas às vezes não são tão simples quanto possam parecer. “A vida – e sua realidade – é muito complexa e o bom do cinema é que ele pode levar as pessoas a refletirem sobre esse conceito”, conclui.

Myrna Silveira Brandão, 16h15min, 24.07.08 __________________________________________________________________________________________
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