|

Um Exercício Metalinguístico
Myrna Silveira Brandão
Sinédoque, Nova York, primeiro trabalho atrás das câmeras de Charlie Kaufman, mantém a assinatura do premiado roteirista, que procura sempre colocar a mente humana como centro de suas tramas. Basta lembrar alguns de seus famosos roteiros. Em Quero Ser John Malkovich um homem descobre um portal que o leva diretamente à mente de Malkovich. Em Adaptação, um roteirista é afligido pelo chamado bloqueio do escritor e resolve narrar a sua própria crise criativa. Em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, um homem magoado porque sua esposa literalmente o deletou de sua memória, resolve fazer o mesmo. Entre voltas e retornos do que é real e do que é ficção, Kaufman vai construindo suas teias.
Sinédoque, Nova York é a história de Caden Cotard, um dramaturgo que está passando por uma crise artística e existencial. Sua mulher o abandonou e, após sofrer um acidente doméstico, alguma coisa parece ter afetado sua cabeça. Quando aparece a oportunidade de montar uma peça teatral – com o dinheiro ganho por sua filha num concurso literário – Cotard se envolve no projeto que ocupará duas décadas de sua vida, obcecado com a idéia de criar um espetáculo que vai revolucionar a arte do século 21. A trama recria, em escala quase real, a vida na cidade de Nova York numa alusão de que os bilhões de pessoas que povoam a terra são protagonistas de sua própria vida. A partir daí, a história segue temas como a arte, a doença, a morte, os sofrimentos, a solidão e a velhice. “Sempre escrevo sobre o que estou pensando. Quando escrevi o roteiro do filme estava refletindo sobre como é ficar velho”, disse o diretor na sessão de lançamento nos Estados Unidos, em Nova York.

A exemplo dos trabalhos anteriores de Kaufman, Sinédoque, Nova York é um exercício metalingüístico com relatos dentro do relato e representações dentro da ação. “A peça inserida no contexto do filme é um simulacro da realidade”, explica o diretor acrescentando que um bom roteiro é aquele que causa estresse e estimula a criatividade. Philip Seymour Hoffman – o oscarizado ator de Capote – está muito bem no papel principal, expressando com louvor a mente tumultuada de Cotard.
O elenco de peso conta ainda com Catherine Keener (que interpreta sua mulher), Emily Watson, Dianne Wiest, Jennifer Jason Leigh, entre outros. Embora o diretor tenha afirmado que discorda da comparação, Sinédoque, Nova York guarda uma analogia com Oito e Meio, do cineasta italiano Federico Fellini, principalmente na criação do universo muitas vezes surreal que envolve os personagens. O filme não é para todos os públicos – principalmente espectadores afeitos a enredos mais lineares – mas certamente vai agradar aqueles que admiram os artifícios narrativos da obra de Kaufman.
Myrna Silveira Brandão , 21h17min, 27.04.09 __________________________________________________________________________________________
|