Intimista e inquietante
Haneke fala de seu filme, Palma de Ouro em Cannes

Carlos Augusto Brandão


The White Ribbon (Das Weisse Band) – a faixa branca em tradução literal – de Michael Haneke, é bem feito e interpretado, com uma fotografia em preto e branco deslumbrante e elenco impecável, principalmente o das crianças.

Vindo de Cannes, onde ganhou a Palma de Ouro, o filme integrou a 47ª edição do NYFF e marca a volta do diretor ao festival, onde o seu Cachê (Escondido) foi o festejado título de encerramento em 2005.


A história é ambientada pouco antes da Primeira Guerra Mundial numa comunidade protestante de um vilarejo da Prússia, onde o pastor local exige que seus filhos adolescentes usem uma fita branca para simbolizar que, mesmo chegando à vida adulta, vão manter a pureza e a ingenuidade da infância. No entanto, a rigidez de princípios dos adultos do povoado (o barão, o professor, o pastor, o médico), encobre uma violenta realidade de caráter moral e sexual. Por isso, quando a paz do pequeno lugarejo começa a ser perturbada por sucessivas tragédias, os personagens interpretam os acontecimentos que os atingem como uma punição aos seus atos pecaminosos. Um médico que cavalga a caminho de casa sofre um aparente acidente, mas na verdade houve uma tentativa deliberada de matá-lo. Crianças, inclusive uma portadora da síndrome de Down, são alvos de constantes violências.

A história é narrada em tom de mistério por um professor da vila como se estivesse se esforçando para lembrar os fatos que o levaram a deixar a comunidade. Mas não é um filme fácil, pelo contrário: o novo trabalho de Haneke é um drama que pouco a pouco vai envolvendo a platéia e mostrando que há muito mais coisas por trás da sua trama principal. Aos poucos os espectadores são apresentados a todos os núcleos familiares da vila, que até então viviam em aparente harmonia entre si.

O diretor alemão, radicado na Áustria, diz que o filme trata do sistema repressivo de educação que alicerçou o nazismo e que havia lido muitos manuais alemães do final do século 19 e início do século 20 antes de escrever o roteiro. “É um ensaio sobre o surgimento das diversas formas de terrorismo. Quando valores absolutos são impostos como princípios morais eles acabam se tornando desumanos”, define o diretor que rodou o filme em preto e branco numa forma de expressar a iconografia do início do século passado. “A opção se deveu ao fato de que as imagens desse período,que vai do final do século 19 ao início do século 20, serem em preto e branco”, explica complementando que adora o p&b e sempre que pode prefere fazer seus filmes dessa forma.

Para Haneke, seu filme trata de um tema universal e não deve ser associado apenas à história alemã e ao nazismo. “A vila é uma espécie de microcosmo de uma sociedade que desapareceu depois da Primeira Guerra Mundial. Não é um filme sobre fascismo, mas sobre a origem de todo o tipo de terrorismo e fundamentalismos, que é um problema atual no mundo de hoje. A felicidade é um artigo raro”, afirma. O austero diretor austríaco, autor de alguns títulos aclamados pela crítica como Funny Games, Código Desconhecido e A Professora de Piano traz com The White Ribbon um dos melhores filmes de sua carreira até agora.


Carlos Augusto Brandão, 21h15min, 15.10.09
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