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Um tributo à Truffaut e à Nouvelle Vague
Myrna Silveira Brandão
Visage, novo filme de Tsai Ming-liang, é assumidamente concebido como uma homenagem a François Truffaut, diretor preferido de Ming-liang, que como já declarou em várias entrevistas, é também um entusiasta e propagador da Nouvelle Vague.
O filme narra as desventuras familiares, afetivas, sexuais e artísticas de um cineasta asiático (Lee Kang-sheng) que, logo após a morte de sua mãe, chega a Paris para rodar um exótico musical sobre a história de Salomé. Com Ardant no papel de uma produtora parisiense, o filme segue seu curso com tomadas longas, bailes eróticos, um longo discurso de Léaud, no qual ele junta diversos ídolos da Nouvelle Vague e um exercício exaustivo de auto-referências, embora a única que soe verdadeira seja a realizada em torno da figura de sua mãe morta, uma alusão direta à experiência pessoal do diretor. Além de Kang-sheng, alter ego e ator fetiche de Ming-liang, Visage reúne um super elenco. Jean Pierre Léaud e Fanny Ardant – responsáveis pela concretização da homenagem a Truffaut – a top model Laetitia Casta e outras celebridades em aparições especiais como Nathalie Baye, Mathieu Amalric e Jeanne Moreau.
Rodado em sua maior parte na França – com muitas cenas no Museu do Louvre – os números musicais, que costumam ser uma atração na obra do diretor, desta vez não têm a força necessária que dariam sustentação às coreografias, culminando por se converterem em glamour estilizado e fora de contexto. Não se pode negar, no entanto, que Ming-ling se manteve fiel à sua assinatura, já que Visage tem todos os elementos característicos de sua obra. Tomadas longas e fixas, abuso de metáforas e alegorias, ausência de trilha sonora tradicional com exceção de algumas canções em mandarim, repetição de signos já utilizados em filmes anteriores, som recorrente de água correndo, muitos aquários, homossexualismo e personagens que não conseguem comunicar suas emoções. 
Concorrente à Palma no último Festival de Cannes e integrante da programação do IndieLisboa, o novo e ambicioso filme de Ming-liang, responsável por outras obras incontestáveis como Viva o Amor (94) e O Rio (97), ganharia mais textura numa edição menor do que suas duas horas e meia de duração. Isso talvez tenha contribuído para algumas ressalvas ao filme e também ao diretor que tem sido acusado de, em sua primeira obra financiada pelo capital francês, ter se distanciado da essência do cinema realizado em Taiwan e até ter exagerado no viés nostálgico da trama, o que acabou resultando num excesso de reminiscências. De qualquer forma, na obra de Ming-liang como é o caso, por exemplo, de Goodbye Dragon Inn – um retrato melancólico do fechamento de uma sala de cinema, descrevendo a passagem inexorável do progresso com um quê de fantástico e surrealismo – há um público cativo, que certamente se identificará com seu novo trabalho. Em 2004, o diretor participou do documentário Bem-Vindo a São Paulo – no segmento Aquarium – um painel sobre a cidade, através do olhar de 13 diretores, entre os quais o paulista Leon Cakoff.
Myrna Silveira Brandão, 19h13min, 12.04.10 __________________________________________________________________________________________
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