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O cinema provocador de Cláudio assis
Ensaio de Carlos Augusto Brandão
Amarelo Manga foi premiado em Berlim na Mostra Forum, dedicada a
diretores emergentes
Após sair do Festival de Brasília consagrado pelo público e com vários Candangos na mala, o polêmico Amarelo Manga, do também controverso diretor pernambucano Cláudio Assis, tem seguido uma contínua trajetória de sucesso: recebeu em Berlim, da Confederação Internacional dos Cinemas de Arte, o prêmio de melhor filme da Seção Fórum ; ganhou em Toulouse o prêmio máximo do festival e levou para casa todos os troféus no último Cine Ceará.

Em Berlim, entre outras justificativas para o prêmio, o júri disse que Assis colocava em prática o slogan do Festival - "Em Direção à Tolerância". Assis, com sua usual atitude desafiadora, iniciou seus agradecimentos com os mesmospalavrões que costuma dizer no Brasil, acrescentando: "dedico este prêmio a todos os brasileiros e reafirmo que a postura política é um dever de cada indivíduo". Na verdade, platéias diferenciadas têm reagido bem a proposta estética de Assis que narra, em seu filme o cotidiano do submundo de Recife, através de personagens estranhos que vão de um açougueiro mulherengo à sua esposa crente, passando por homossexuais e outras figuras bizarras. Afinal, essa é a intenção dos filmes de Assis: "quero fazer um cinema que mostre o povo, o seu lado mais marginal, o submundo", diz ele para explicar o seu trabalho. "Não quero fazer filmes limpinhos nem filmar o sertão com gente bem vestida. O nosso povo não é assim", afirma com seu jeito convicto. Em certos de Amarelo Manga, a ficção se mistura com a realidade e aparecem pessoas anônimas em cenas documentais. "Isso foi intencional; embora o filme seja ficcional, eu quis retratar a realidade, mostrando como o povo trabalha, como sofre, como sofre, enfim como vive", esclarece.
Originário de Caruaru, Assis diz que sua cabeça é ligada ao cinema desde a época em que vivia nessa cidade do interior de Pernambuco: "eu tinha uns dez anos e pedia para um cabra cortar e colocava num móculo", conta , acrescentando que à noite entrava escondido nos cinemas para ver filmes impróprios para 21 anos atrás da cortina. "Dessa forma aprendi a amar o cinema", revela com uma ponta de ironia. Assis gosta de falar do seu primeiro filme sobre um padre assassinado durante a ditadura, arrastado pelo campus da Universidade Federal de Pernambuco. "O filme me abriu as portas de vários festivais, Salvador, Brasília, Rio de Janeiro". 
E agora, qual o retorno de todas essas premiações para Amarelo Manga ? perguntamos ao diretor. "Certamente estão trazendo uma maior visibilidade ao filme e ao cinema brasileiro. Mas é preciso que as mudanças ocorram também dentro da classe cinematográfica, que os realizadores se reúnam, lutem, formulem propostas para que haja um projeto de cinema nacional em que todos possam filmar. A hora é essa", afirma.
O diretor fala da forma como trata a violência em seus filmes: "a pior violênica não é a expressa pelas armas e pelos cassetetes, mas sim aquela resultante da pobreza extrema, a falta de respeito com o ser humano, a forma como as pessoas sem recursos são tratadas, a luta que elas precisam travar para sobreviver. Essa é a pior de todas as violências e é ela que eu procuro mostrar e denunciar nos meus filmes", diz. Assis satisfaz a curiosidade de muitos esclarecendo o significado do título do filme: "Amarelo é a cor que está nos chapéus de palha, nos cabos da enxada e nas feridaspurulentas dos pobres de Pernambuco. Assim, em todos os elementos do filme, na fotografia (de Walter Carvalho), na direção de arte , nos cenários, o amarelo manga está lá ", explica.
Ao final, o diretor fala de sua estratégia de lançamento: "o filme não se completa quando você termina e passa para meia dúzia de pessoas ou em festivais. Ele só se completa quando você mostra para o povo e ele reage gostando ou não, aplaudindo ou vaiando. Quero exibir Amarelo Manga para o máximo possível de de pessoas, de graça, a um real, seja lá como for, o importante é que elas possam assistir ao filme", conclui.
Carlos Augusto Brandão, 23.05.03
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