Madame Satã é mostrado para o público independente
Ensaio de Carlos Augusto Brandão


Madame Satã, de Karin Aïnouz foi um dos filmes brasileiros selecionados para a Mostra Cinema Mundial do Festival de Sundance, que acontece todos os anos em Park City, Utah - EUA.

O diretor Aïnouz disse ao Cena por Cena que a exibição no Sundance pode ajudar muito nas negociações para distribuição do filme, entendimentos que já estão em curso através de uma parceria com a Miramax e a Studio Canal, entre outras. O filme já tem exibição garantida em vários países e previsão de lançamento no circuito americano em junho próximo. "Mas é claro que a sessão para o pessoal independente tem uma característica diferente. O Sundance é uma vitrine para centenas de distribuidores e produtores", avaliou Aïnouz, que já trabalhou nos Estados Unidos com cineastas independentes, entre eles o diretor do ótimo Velvet Goldmine, Todd Haynes.

O filme, já lançado no Brasil, é a história de João Francisco dos Santos, o lendário marginal conhecido como Madame Satã, nome inspirado em trabalho do diretor americano Cecil B. De Mille. Madame Satã começa com uma tomada do rosto de João Francisco desfigurado por hematomas, logo após ter sido detido por homicídio, crime que o colocou atrás das grades por 12 anos. A trama acompanha apenas uma parte da vida do personagem, até 1938 (ele morreu em 1976), momento em que o mito Satã começa a ser gerado. Aïnouz concentra sua ação no perfil transgressor do personagem e na sua heróica estratégia de resistência de ser humano excluído socialmente. Homossexual assumido, preto e marginalizado, João Francisco nunca se deixou intimidar e era conhecido por sua extrema valentia e por sua capacidade de conviver com situações adversas e dar a volta por cima dos problemas. Para isso, não vacilou em ser cafetão e leão de chácara de bordel.

Sobre os motivos que o fizeram decidir a levar o mito de Madame Satãpara as telas, Aïnouz disse que foi um misto de muitos coisas: "Mas talvez o que mais me motivou tenha sido o aspecto da exclusão e a sua forma de ter reagido a ela, nunca se deixando abater", revelou. Esse é um dos pontos mais instigantes do filme.

Ao projetar - com a ajuda da belíssima e adequada fotografia de Walter Carvalho - a dualidade entre a exclusão e a esperança de sair dela, Madame Satã é, como evidenciado pelo prórpio diretor, um filme atual. "É impressionante como a vida de um homem excluído na década de 30 é uma situação contemporânea, um fato que continua acontecendo", atestou, complementando que a capacidade de João Francisco de se reinventar a cada momento - passando da violência bruta a ações de extrema sensibilidade - é, para ele, um dos aspectos mais fascinantes de sua vida.

A ambigüidade do personagem é muito bem capturada pela câmara de Aïnouz, ora mostrando momentos do seu temperamento explosivo, ora situações de doçura com a criança meio adotada por ele, filho da prostituta Laurita (Marcélia Cartaxo em mais um de seus ótimos desempenhos). O roteiro nunca deixa de evidenciar a homossexualidade de João Francisco, sua figura de anjo/demônio; mas, acima de tudo retrata o ser extremamente complexo que acabou se transformando no mito Madame Satã. "Para isso, o filme percorre o caminho que ele fez para realizar o sonho de se tornar uma estrela, mas logo depois abortado pelo delito que o torna um criminoso. Eu quis mostrar a dualidade do personagem, seguindo a vida de João Francisco nos momentos que antecederam à criação do mito", disse o diretor, que com seu excepcional longa de estréia desponta como um talento bastante promissor da nova geração de cineastas brasileiros.


Carlos Augusto Brandão, especial para o Cena por Cena, 03.02.03


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