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Uma jornada muito pessoal pelo cinema italiano
Ensaio de Myrna Silveira Brandão

Um misto de autobiografia e viagem sentimental compõem a monumental história do cinema italiano vista pelos olhos de um garoto que cresceu no bairro italiano de Nova York conhecido como Pequena Itália e mais tarde tornou-se um dos grandes diretores do moderno : Martin Scorsese, autor do excelente documentário Minha Viagem pela Itália (Il Mio Viaggio in Italia).
O filme tem emocionado o público em todos os lugares onde já foi exibido, apesar de suas quase quatro horas e meia de duração. A verdade é que ele vale cada minuto da nossa atenção: são cenas antológicas e inesquecíveis que desfilem aos olhos do espectador, mostrando um cinema que influenciou toda uma geração de realizadores, inclusive o próprio Scorsese.
Como diz o diretor em determinado momento do seu filme, ele assistiu ao longo de sua vida a todas essas produções pela televisão e elas representaram para ele uma possibilidade de conhecer melhor a história da Itália e a vida dos seus antepassados. Muitas questões que surgiram ao longo da minha vida necessitavam de respostas que apenas naqueles filmes eu poderia encontrar", diz o diretor, complementando que foi através dos filmes italianos daquela época que conseguiu "descobrir" a sua própria família, quem eram e de onde vieram.
O documentário percorre o cinema italiano dos anos 40 aos 60 e mostra inúmeras cenas de clássicos do cinema peninsular como Ladrões de Bicicleta e Umberto D, de Vittorio De Sica; Paisá e Stromboli, de Roberto Rosselini ; Rocco e Seus Irmãos e Obsessão, de Luchino Visconti; A Aventura e A Noite, de Michelangelo Antonioni ; e muitos, muitos filmes da carreira de Federico Fellini, incluindo A Estrada da Vida, As Noites de Cabíria, A Doce Vida e Oito e e Meio. Sem falar em nomes menos conhecidos, mas que deram sua contribuição para que o cinema italiano daquelas décadas conquistasse a credibilidade e o respeito que obviamente merecia. 
A viagem segue com uma aula informal de cinema, pois Scorsese às vezes desvia o roteiro do tema principal para falar de Bergman e Glauber Rocha, diretores que, como já declarou em várias entrevistas, estão entre aqueles que mais admira. Talvez tenha sido também por admiração que Scorsese incluiu nessa trajetória cinematográfica o contemporâneo Nanni Moretti (Caro Diário) que recentemente nos brindou com seu belo filme, O Quarto do Filho (La Stanzia del Figlio).
Na verdade, Minha Viagem pela Itália vai além do seu potencial didático e presta uma homenagem a todos esses mestres que revolucionaram a gramática, a forma e o conteúdo dos filmes desde quando Rosselini realizou Roma Cidade Aberta, marco inicial do revolucionário neo-realismo.
Scorsese já declarou que vai realizar uma continuação desse painel , abrangendo a década de 70 e incluindo a geração de Bellochio, Bertolucci, Ferreri e outros. Vale a pena esperar.
Myrna Silveira Brandão, 28.06.02
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