|

O PRIMADO DO NORDESTE NA CINEMATOGRAFIA BRASILEIRA
Texto de Marcos Aurélio Felipe

O contexto histórico-espacial nordestino - do final do século XIX a meados do século XX - da problemática do cangaço, do fanatismo religioso e das migrações sertanejas - sempre foi objeto de representação na arte brasileira. No cinema, ao contrário das outras manifestações artísticas, esse contexto histórico-espacial passou a ser um fato recorrente. Mas foi somente no Cinema Novo que ele se tornou em motivo fundador de uma nova estética fílmica no Brasil - a "Estética da Fome". Desse modo, o Nordeste assume uma importância sem paralelo na cinematografia brasileira, pelo fato dela ter possibilitado ao cinema nacional romper com a concepção de cinema industrial-americano que imperava no país e influenciar o surgimento de vários outros cinemas pelo mundo afora, definindo, por sua vez, aquilo que convencionalmente vieram a chamar temática nordestina.
A "Estética da Fome" foi elaborada nos filmes produzidos entre 1962-1964: "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (64), de Glauber Rocha; "Os Fuzis" (64), de Ruy Guerra; e "Vidas Secas" (63), de Nelson Pereira dos Santos; que geraram imagens quase sempre vinculadas as ambientações da fome e da violência do sertão nordestino. Luiz Carlos R. BORGES, ao analisar esses filmes, corrobora conosco, quando afirma que os temas da fome, da miséria e da violência foram representados em função da construção de um projeto cinematográfico. Já sob uma primeira análise, as locações desses filmes apresentam um contexto histórico-espacial nordestino marcado por uma estrutura social subdesenvolvida, tanto pelas relações sociais extremamente violentas exploradas quanto pela presença imponente da natureza hostil sertaneja enfatizada. Em "Deus e o Diabo na Terra do Sol", por exemplo, que narra a travessia do vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey) e de sua esposa Rosa (Ioná Magalhães) pelo sertão, a violência e a fome se apresentam como parteconstitutiva de toda a narrativa. Logo no início, elas são apresentadas através da imagem de uma vaca morta, que nos olha e que nos insere no campo visual. Essa imagem emblemática do sertão, como escreveu Arnaldo JABOR, "nos incluía" no drama sertanejo como parte integrante. Assim, o sertão nordestino aparece não apenas como motivo, mas, principalmente, como elemento participante, ativo, que quer nos mostrar, e que nos mostra, uma realidade até então ausente das câmaras oficiais oficiais brasileiras.
Em "Vidas Secas", de Nelson Pereira dos Santos, que narra a trajetória de Fabiano (Átila Iório) e de sua família pelo sertão, a exploração do homem pelo homem e a natureza hostil são os elementos centrais da obra . Logo na primeira seqüência, a câmera-na-mão nos insere como testemunha participante no drama vivido pelos personagens. A matança de um papagaio (animal doméstico) pertencente ao grupo, ocasionado pelo drama desses personagens sertanejos, faz desta seqüência um um símbolo da miserabilidade, a qual estava imersa uma família camponesa localizada no polígono das secas. Um dos signos reveladores dessa ambientação pode ser encontrado também na natureza sertaneja, que 
se transforma antes em um sistema de linguagem do que em motivo de representação, enfatizando a condição sub-humana do homem nordestino, que se transforma em um retirante pelas terras inóspitas do Nordeste Brasileiro.
"N'Os Fuzis", de Ruy Guerra, cuja narrativa se detém no drama de um grupo de soldados, que são contratados para protegerem armazéns de um político contra a invasão de camponeses famintos liderados por um Beato, a fome e a violência não são apenas os motivos, mas os elementos centrais dos fatos sociais e dos atos humanos que se desenrolam durante a trama. A abertura do filme nos coloca no contexto de tormenta e dor do povo nordestino. Um beato, buscando uma solução para acabar com o flagelo e a seca no sertão, evoca a imagem de Deus, implora para que ele solucione o mal que fez com que a terra ficasse "mais seca do que o coração do homem sem crença". Toda essa seqüência é emoldurada, como mesmo colocou Marcos da Silva GRAÇA, por: "Um sol fluido em seu contorno e crescendo em [que] explode na tela, tomando por completo o quadro numa apresentação simbólica [...] de sua influência nefasta durante as secas [junto] a outros planos de animais menores e da vegetação escaldando sob o sol, numa retórica de acréscimo de imagem-som sobre a pregação do profeta". Nessas imagens, a natureza aparece mais uma vez como um símbolo representativo e esclarecedor da condição miserável do homem nordestino, como um signo que nos diz que a natureza, junto com a falta de políticas públicas, também não estar a seu favor.
Marcos Aurélio Felipe, Historiador & Mestrando em Educação - UFRN, 06.05.02 m.online@bol.com.br
|