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Dançando no Escuro - O que é a "América" para um imigrante?
Ensaio de Marcos Aurélio Felipe
Todos os anos, a "América" vê suas fronteiras serem rompidas por milhares de africanos, europeus, latino-americanos e asiáticos, que, clandestinamente, adentram em seu território e se transformam em imigrantes, a procura das benesses do wave of life, tão divulgadas pelos meios de comunicação de massas, para dá um mínimo de dignidade aos seus familiares, já que, nos seus países de origem, a cidadania é sorte de poucos e a miséria, azar de muitos. Eu mesmo, testemunha ocular de fatos que se sucederam em ambientes que freqüento, vi recentemente parentes de amigos meus deixarem empregos, escolas e familiares e partirem para a "América", risonha e franca, mesmo que para lá tenham ido ocupar postos de trabalho, que eles mesmos, os americanos, não se sujeitam a ocupar.
O cinema, mais do que qualquer outra arte, sempre buscou representar o drama desses milhares e milhares de imigrantes na "América". O filme Dance In The Dark (Dançando no Escuro), de Lars Von Trier, expõe os dois lados que, no geral, marcam o imigrante na "América": a busca incessante de realizar o sonho de uma vida melhor, porque todos, como simbolizado pela própria "Estátua da Liberdade", são livres para vencerem e morrerem como quiserem; e, fatalmente, o destino trágico não esperado, demonstrando que, na "América", a vida não é tão doce quanto se pensa e muito menos a condição de um imigrante, que veio para tomar os postos de trabalhos dos filhos do Tio-Sam. 
Dance In The Dark, Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2000, revela a condição de uma imigrante na "América". Selma (Björk) é uma imigrante checa nos Estados Unidos dos anos 60, que está perdendo a visão e que se sacrifica por seu filho. Imigrou a procura de encaminhamentos médicos para livrá-lo da doença hereditária que inevitavelmente irá atingi-lo. Para isso, trabalha de dia e de noite nas fábricas americanas e, o que recebe no final do mês, economiza religiosamente, buscando fundos para pagar o tratamento. Entretanto, ela vê seu sonho desfigurar-se, quando mata um policial que tenta usurpar suas economias e, assim, impedir a cura da doença do seu filho. Desse modo, comete um crime bárbaro, porque mata um homem de armas, tão valorizado pelos americanos, que os vê como continuadores dos seus antepassados que fizeram a "América", porque fizeram armados, com o direito de decidir pela vida e pela morte daqueles que se pusessem na frente como obstáculos. Dance In The Dark, desse modo, abre inúmeras discussões sobre instituições legais dos Estados Unidos. Através do drama de Selma, que, em nome da saúde do seu filho, é condenada a pena capital, o filme põe em xeque a instituição da pena de morte americana, chamando a atenção para as falhas, que, por ventura, poderão existir quando pessoas inocentes perdem suas vidas e quando muitas delas são condenadas à morte, quando na verdade estão apenas se defendendo. Em outros momentos, Lars von Trier nos insere na "América" falida, quando, paralelamente, mas coerentemente integrado a dramaturgia cinematográfica, analisa um casal americano, que, endividado, faz de tudo para manter o antigo padrão de vida perdido. Assim, nos revela uma "América" desumana, tanto para os imigrantes quanto para boa parte dos próprios americanos, que vivem a margem da globalização, não tendo acesso, eles próprios, nem tão pouco os imigrantes, a muitas das suas benesses, como equivocadamente sonhado do lado de fora das suas fronteiras.
Marcos Aurélio Felipe, Prof. de História & Mestrando em Educação - UFRN, 15.10.01 m.online@bol.com.br
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