CINEMA CHINÊS - MINHA PAIXÃO DE INFÂNCIA
A primeira vez que fui ao cinema no ano de 1973 em Curitiba, cidade onde nasci, assisti a um filme chinês, cujo nome em português era "Dragão Cego Contra o Lobo Branco". A história era de muita ação e se passava numa época distante, uma espécie de filme histórico. O personagem central, um homem velho, cego e pobre, exibia grande poder mental e se preparava para enfrentar o "Lobo Branco", um homem rico e vaidoso que vestia roupas de pele de lobo, realmente muito mau.
Já se passaram 28 anos e ainda guardo um brilho nos olhos de ter visto aquele filme. Lembro-me da beleza das cores explodindo na tela em forma de ideogramas vermelhos, azuis, amarelos e pretos, pois, até então, nunca tinha visto um filme colorido. Depois da minha estréia, como "rato de cinema" passei a ver, até 1978 os melhores filmes chineses que apareciam no cine Arlequim, que foi o cinema da minha infância e que fechou suas portas no final da década de 70.
Os atores chineses pareciam pessoas vindas de outro planeta, falando aquele idioma estranho em que não se entendia uma só palavra, mas que nos permitia sonhar. A filmografia chinesa da década de 70 merece ser revista. Lembro-me do nome em português de filmes: "Lee Can - O Chinês", "Chao Lin - O Monge Budista", "Nas Garras do Tigre", "Magia Negra Oriental" e "Matadores Selvagens de Ming". Este último, falava da violência que marcou a china durante a dinastia Ming. Um filme muito bonito.
Muitos amigos de infância assistiram aqueles filmes comigo. O que talvez nos deixasse felizes era o fato de o mocinho ser sempre uma pessoa do povo. Aqueles filmes nos davam a sensação de que, se não se tivesse o poder das coisas materiais, era possível enfrentar o inimigo apenas com a força moral, o amor pelo ideal. Eram filmes que incitavam as pessoas a morrer por uma causa e isto é o que me persegue até hoje. Quando assisti ao filme recente do cineasta Chinês, Ang Lee, "O Tigre e o Dragão", revivi esta época mágica da minha infância e saí do cinema com uma sensação muito boa. Desde criança, sempre gostei mais dos filmes em que o mocinho morre no final. Talvez, este olhar trágico para a vida e esse desejo de "morrer por uma causa" tenha sido adquirido no cine Arlequim, quando eu tinha apenas 8 anos de idade assistindo aos filmes chineses.
Jiddu Saldanha, mímico e artista plástico, http://br.geocities.com/jiddusaldanha/
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