Mondovino
Myrna Silveira Brandão


JONATHAN NOSSITER, França / 2004
Documentário sobre o mundo o vinho denuncia os males da globalização e traz à tona bastidores dos grandes produtores da bebida.


Mondovino, de Jonathan Nossiter , trata da indústria do vinho, certamente um tema ainda pouco explorado no cinema. O filme, que concorreu à Palma no último Festival de Cannes teve sua estréia nos Estados Unidos no último Festival de Nova York. Na verdade, o mundo do vinho é pano de fundo para uma crítica contra a globalização, a invasão e a colonização cultural posta em prática pelas grandes corporações, principalmente as americanas.

Num documentário de quase três horas, Nossiter mostra exemplos de fabricantes de vinho na França, Itália, Estados Unidos, Argentina e até no Brasil – um casal de viticultores gaúchos em Pernambuco. É um documentário investigativo que inclui vinícolas com anos de tradição e os chamados emergentes que lutam com todas as armas, éticas ou não, para dominar o ramo. O filme aborda relações comerciais, discute a questão do mercado e entra nos bastidores dessa indústria, que somente na Califórnia gira algo em torno de 33 bilhões de dólares por ano.

Espectadores pouco conhecedores do tema e do que pode acontecer por trás do pano no mundo do vinho poderão se surpreender com a força que os críticos de publicações especializadas podem ter, capazes de alterar o rumo desse mercado da noite para o dia. Um deles, Robert Parker, da revista Wine Spectator, é um dos mais temidos. Conhecido no meio como The Nose (o nariz), Parker, considerado o principal crítico do mundo no assunto, pode apenas com uma cotação, levar vinhedos à falência ou torná-los milionários. Claro que o conceito, numa metáfora, é válido também para outros ramos. Parker é um dos entrevistados do documentário e o seu depoimento, obtido com muita competência por Nossiter (que estimula o ego e a vaidade de Parker), fala por si só. Aliás o próprio Nossiter é consultor de cartas de vinho e escreve artigos sobre a bebida. Conhecedor do assunto, ele procura dividir, no seu filme, os pequenos produtores realmente interessados na qualidade dos vinhos e as grandes corporações mais preocupadas com lucro e jogadas de marketing.

Outro entrevistado, Michel Rolland, um dos especialistas em vinho mais requisitados do mundo, é apresentado como amigo de Parker. Numa aparente combinação, o crítico faz uma avaliação negativa de determinado tipo de vinho e logo em seguida Rolland oferece seus serviços para o produtor. Pouco depois, Parker refaz sua avaliação, numa clara insinuação que a melhoria do produto certamente se deveu à intervenção de Rolland e suas técnicas milagrosas.

E assim vão passando pela câmera de Nossiter depoimentos de gigantes dessa indústria como os Rothschild e a trindade oligárquica do Vale do Napa na Califórnia, formada pelos Harlan, Staglin e os dominantes Mondavi. Nossiter – autor de outro documentário enfocando a vida do diretor Arthur Penn – disse na coletiva após a sessão, que Mondovino pode vir a ser uma série de televisão em dez episódios.

Myrna Silveira Brandão, 18.05.05


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