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Divas dos anos 50 numa mostra de sonhos
Myrna Silveira Brandão
A 56ª edição do Festival de Berlim dedica sua Mostra Retrospectiva às divas e heroínas da tela dos anos 50. A reunião de todas elas de uma só vez num evento grandioso recebeu o inspirado nome de Dream Girls.
A tradicional mostra da Berlinale começou em 1976 com uma homenagem a Marlene Dietrich e está celebrando o seu 30º aniversário com essa comemoração em grande estilo. Serão mais de 45 filmes com 30 atrizes dos Estados Unidos, Europa e Japão, enfocando o desempenho da mulher em filmes internacionais do período do pós-guerra, as questões da sexualidade da época e o clima da Guerra Fria.
Além de verdadeiros mitos de Hollywood como Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Grace Kelly e Audrey Hepburn, muitas outras que pontificaram na década, atraíram a atenção de festivais internacionais sobretudo os grandes eventos europeus como Cannes, Veneza e Berlim.
Assim, atrizes esquecidas por muitos e até desconhecidas por alguns também compõem a mostra como a sueca Harriet Anderson, a japonesa Setsuko Hara, a russa Tatyana Samojlova e a húngara Mari Töröcsik.

Harriet Anderson, uma das musas do cultuado Ingmar Bergman, fez vários filmes com ele, entre os quais Mônica e o desejo e Sorrisos de uma noite de amor.
Setsuko Hara trabalhou com diretores cultuados como Yasujiro Ozu (Contos de Tóquio e Fim de verão), bem como com Akira Kurosawa (O Idiota). Hoje, com 86 anos, ela está distante do cinema desde 1966 quando fez seu último filme.
Já Tatyana Samojlova é conhecida do público brasileiro pelo seu papel memorável em Quando voam as cegonhas, de Mikhail Kalatozov. O filme ganhou a Palma de Ouro e Samojlova uma menção especial por sua expressiva interpretação de Verônica.
Mari Töröcsik soa como um nome quase desconhecido, principalmente no Brasil, mas a atriz húngara, nascida em 1935 atuou em 110 filmes e continua na ativa. Em 1971 com Amor (Szerelem) ganhou uma menção especial de melhor atriz no Festival de Cannes. O comovente filme do também pouco conhecido no Brasil diretor húngaro Károly Makk ganhou o grande prêmio do júri, o prêmio da crítica húngara e o prêmio da OCIC. A mostra focará igualmente outras estrelas européias como Hildegard Knef, Ana Magnani e Jean Simmons, que foram para os Estados Unidos e lá tiveram sucessos variáveis. No caminho inverso, lendas de Hollywood começaram uma segunda carreira na Europa no auge da fama – como foi o caso de Ingrid Bergman.
O tempo pode ter igualmente colocado no esquecimento alguns nomes, mas vale lembrar que a alemã Hildegard Knef tornou-se uma estrela conhecida internacionalmente quando participou em 1946
de Os assassinos estão entre nós, de Wolfgang Staude, o primeiro filme alemão realizado após a 2ª Guerra Mundial. Impressionado com o sucesso do filme o poderoso David O. Selznick a convidou para trabalhar em Hollywood desde que concordasse em adotar o nome de Gilda Christian e se considerar cidadã austríaca ao invés de alemã, condições recusadas por ela. Ao casar-se com o americano Kurt Hirsch, surgiu então uma oportunidade para iniciar uma segunda carreira nos Estados Unidos, quando participou de grandes sucessos da época como As neves do Kilimanjaro, de Henry King e Missão perigosa em Trieste, de Henry Hathaway. Em 2000 Hildegard recebeu um prêmio honorário no Festival de Berlim e, após perder a luta para um câncer, morreu em 2002.

Já Anna Magnani é reconhecida como um dos maiores mitos do cinema italiano e um dos grandes nomes do cinema mundial. Nascida em Roma em 03 de julho de 1908 e filha ilegítima de um egípcio e da italiana Marina Magnani,
Anna foi criada pela avó materna num bairro pobre de Roma. Educada num convento, muito cedo decidiu ser atriz, matriculando-se na Academia de Arte Dramática de Roma.
Antes de dedicar-se ao cinema a partir de meados dos anos 30, foi cantora
de cabarés, participou de shows de variedade e foi atriz de teatro. Em 1927 participou de um filme num pequeno papel, mas sua entrada no cinema de fato se deu em 1941 em Teresa Venerdi, de Vittorio De Sica. Sua projeção para a fama, no entanto, somente viria a acontecer em 1945 no filme
Roma, Cidade Aberta, de Roberto Rossellini, obra considerada marco do neo-realismo italiano. No papel da viúva grávida, Anna ganhou um prêmio na Itália e nos
Estados Unidos e, a partir daí, transformou-se numa estrela internacional. Embora a enorme repercussão do filme de Rossellini, Anna é mais lembrada pelo seu papel em A Rosa Tatuada, de 1955. Anna tem um impressionante desempenho passional,
recebeu inúmeros elogios da crítica e ganhou o Oscar naquele ano. O filme é uma adaptação da peça de Tennessee Williams e conta o romance entre uma viúva e um motorista de caminhão, vivido por Burt Lancaster.

Outros destaques de sua carreira incluem: Angelina, a Deputada, de Luigi Zampa, 1947, melhor atriz no Festival de Veneza; O amor, de Roberto Rossellini, 1948; A carruagem de fogo, de Jean Renoir 1952; A fúria da carne, de George Cukor, 1957, Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlin, e indicado ao Oscar; Mamma Roma, de Píer Paolo Pasolini, 1962, indicado ao Leão de Ouro; e O segredo de Santa Vitória, de Stanley Kramer, 1969, Globo de Ouro demelhor musical. No filme Camicie Rosse 1952, escrito por Magnani e dirigido pelo seu ex marido Goffredo Alessandrini, viveu a brasileira Anita Garibaldi. Nos últimos anos trabalhou mais no teatro e na televisão italiana. Morreu de câncer em 26 de setembro de 1973 em Roma. Em 1979 foi realizado o documentário sobre sua vida Io Sono Anna Magnani, de Chris Vermorchen.
A inglesa Jean Simmons, por sua vez, tornou-se um nome bem mais conhecido e é muito lembrada por sua atuação em filmes que se tornaram marcos do cinema como Spartacus de Stanley Kubrick e Da terra nascem os homens, de William Wyler.
Entre as estrelas que migraram de Hollywood para a Europa, Ingrid Bergman talvez tenha sido uma das mais famosas, inicialmente já devido ao seu inesquecível papel em Casablanca, 42 de Michael Curtiz (Oscar de melhor filme e melhor diretor), mas também pelo seu tumultuado romance com Roberto Rossellini, durante as filmagens de Stromboli, em 1950. A atriz também esteve nos refletores muitas vezes devido aos inúmeros prêmios e indicações para o Oscar: ganhou a estatueta de melhor atriz em À meia luz, de George Cukor em 44; em Anastácia, a Princesa Esquecida, do russo Anatole Litwak em 56; em Assassinato no Oriente Expresso, de Sidney Lumet, em 74.
São destaques ainda da homenagem a francesa Brigitte Bardot e a grega Melina Mercouri, que dispensam apresentações e comentários, mas sem dúvida nenhuma, incorporaram um novo estilo de mulher e se tornaram ídolos de uma geração inteira.
Dieter Kosslick, diretor da Berlinale diz que, de um lado havia um sentido de um novo começo e progresso, de outro a nostalgia e uma espécie de aparente recato. "As imagens da mulher, personificada pelas grandes estrelas do período,refletem as tensões daquela década”, afirma Kosslick já no seu quarto ano à frente do tradicional evento. Em retrospectiva, muitos desses filmes procurarão mostrar como a década de 50 foi um tempo de transformação política e cultural.
Myrna Silveira Brandão, 24.11.05 __________________________________________________________________________________________
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