O Galinho Chicken Little
Carlos Augusto Brandão


NOVOS TEMPOS NA ARTE DA ANIMAÇÃO

Com Galinho Chicken Little, Disney tenta dar a volta por cima.


Houve um tempo em que a Walt Disney Pictures reinava absoluta, um tempo em que desenho animado e Disney eram quase sinônimos. Só que aquele tempo foi mudando, e o poderoso estúdio não percebeu que as histórias de princesinhas, príncipes encantados e o “felizes para sempre” já não seduziam tanto. Ao amargar alguns fracassos e tomar um susto com o sucesso na bilheteria e na crítica de filmes como FormiguinhaZ, de Eric Darnell – o primeiro desenho produzido pela Dreamworks – e Shrek, que lhe tirou o Oscar concedido pela primeira vez a filmes de animação (justo dela, que lutou anos e anos para a criação desse prêmio), a lendária produtora finalmente viu que o mundo de fantasia onde reinava absoluta havia mudado, que deitar nos louros ou repetir fórmulas manipuladoras já não convenciam tanto. Para virar o jogo, resolveu seguir a nova onda dos concorrentes e a opção de entrar de cabeça na era digital foi uma das estratégias.

O Galinho Little Chicken, de Mark Dindal, é o primeiro longa de animação totalmente digital feito pela Disney e o primeiro que o estúdio realiza depois que rompeu com a Pixar – com quem havia realizado o ótimo Procurando Nemo. Mas a verdade é que, sem as inovações trazidas pela Pixar, alguns clichês do lendário estúdio ainda permanecem: entre eles, as mensagens edificantes, as músicas melosas como pano de fundo e um dos mais fortes conceitos do estúdio – as célebres lições de moral e a eterna vitória do "bem" contra o "mal". Como pano de fundo permanente, a venda subliminar dos valores filosóficos e ideológicos do "American way of life".

Baseado numa fábula inglesa, o filme segue um galinho que provoca um grande tumulto ao alertar a população de um ataque iminente. O ataque não acontece, mas o pânico causado pelo aviso deixa um rastro de destruição. Depois disso, o galinho precisa recuperar sua reputação, pois nem mesmo seu pai – um ex-ídolo de beisebol – acredita mais nele. Seus vizinhos também passam a vê-lo como piada e Galinho vai precisar lutar muito para reconquistar a confiança de seu pai, dos amigos e da cidade. Para isso vai contar com a ajuda de seus companheiros fiéis, o porco Runt of the Litter, traduzido carinhosamente por Raspa do Tacho, a pata Hebe e o Peixe Fora D’Água. Predominam os dilemas pai e filho, embora distantes daqueles de Nemo. A trilha sonora de John Debney segue o estilo dos filmes do estúdio e as soluções visuais são boas, principalmente no momento em que o céu é forrado de naves espaciais.

A mensagem é dirigida para um público certo e nisso ela se mantém fiel ao seu estilo original e não seguiu os estúdios rivais. As suas histórias continuam a buscar sempre o final feliz e enquanto os desenhos mais modernos têm um apelo adulto, esta história de O Galinho é totalmente voltada para as crianças e para um público meio nerd. Essa platéia-alvo certamente irá gostar do filme e do personagem, que inegavelmente é engraçado e além disso consegue passar um misto de ternura e compaixão. Mas se quiser recuperar seu reinado, ou pelo menos competir com os novos tempos da arte de animação, a Disney precisa rever também alguns conceitos que, se davam certo em anos mais amenos, hoje já não seduzem tanto e levam os espectadores para outros rumos. Além disso, em tempos de internet, celulares interativos, videogames e tevês de última geração – enfim com um leque muito maior de opções – é preciso que os filmes de animação não contenham apenas apelos infantis, mas também procurem atingir faixas etárias diferenciadas.

Carlos Augusto Brandão, 08.12.05
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