O brilho dos curtas brasileiros
Myrna Silveira Brandão


Três curtas brasileiros participam da mostra competitiva dedicada ao formato na 22ª edição do Festival de Sundance, que tem lugar em Park City, Utah (EUA). Não é pouca coisa. O festival recebeu 4.327 submissões e selecionou apenas 73 títulos, menos de 2% do total. Dois deles – Início do Fim, de Gustavo Spolidoro e Desejo de Anne Pinheiro Guimarães – foram selecionados para a Mostra Dramática. O terceiro, Quimera, de Erik Rocha, foi inscrito na Mostra Frontier, destinada a apoiar filmes de vanguarda.

UM HOMEM DESISTE

Com a frase acima, a produção sintetiza o cerne de Início do Fim, que aborda o tema do medo e da solidão. Já premiado em Gramado, São Paulo e Vitória, o filme mostra a luta de um homem para manter a normalidade no seu lar cercado pela guerra. Spolidoro explica que a idéia foi colocar o espectador dentro da tristeza de uma guerra. Para tanto, a construção sonora, a utilização extrema do Dolby e o volume alto têm, por objetivo, criar a angústia necessária para a vivência do filme. Para o diretor, a exibição de Início do Fim numa vitrine com a credibilidade do Sundance, vai facilitar sua estréia na direção de um longa-metragem. “Já tenho o projeto em mente: será O Homem que Roubou o Mundo, uma homenagem a grandes filmes de bandidos que marcaram a história do cinema de ação. O filme se passa em três épocas diferentes, aos 12, 25 e 45 anos na vida de um bandido, apelidado de Brasa, que vê sua personalidade se alterar em cada uma das épocas”, revela Spolidoro, autor dos curtas Domingo e do premiado Outros, realizado em apenas um plano seqüência nas ruas de Porto Alegre.

DESEJO

O outro concorrente na mostra de dramas, dirigido por Anne Guimarães, faz uma viagem pela alma de Atanásio, um porteiro de Copacabana. Estreando agora na direção com seu primeiro trabalho, Anne foi assistente de Bruno Barreto em O Casamento de Romeu e Julieta e de Karim Ainouz em Madame Satã. Trabalhou também em produções americanas, como assistente de unidades de direção, com os cineastas Frédéric Auburtin em San Antonio e David Anspaugh em The Game of Their Lives, 2005. Este último, já lançado no circuito americano, conta a história real de um jogo entre americanos e ingleses em Belo Horizonte na Copa de 50, no qual os Estados Unidos foram vencedores. Anne informa que Desejo terá seu primeiro teste fora do Brasil no Sundance. “Além de ser um ponto alto para a carreira do filme, é uma honra ter sido selecionada para um festival jovem, exigente na sua programação e de vanguarda”, afirma a diretora.

UMA TRAJETÓRIA VITORIOSA

Quimera, que concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2004, já esteve em mais de 40 festivais. O filme expõe uma mistura surrealista de um homem e um gato no limite invisível de seus corpos. Com som acurado e primorosa edição, Quimera cria uma perfeita harmonia de dissonância. Rocha – embora não busque o viés político que seu pai, Glauber Rocha, imprimia em seus filmes – segue no entanto a linha do visionário cineasta, a de quebrar regras em propostas altamente inovadoras. Para Rocha, a exibição no Sundance, além de ser uma chance de Quimera continuar seu percurso em uma janela diferenciada, será também uma possibilidade para avaliar a receptividade em dois grandes pólos do cinema mundial: o Festival de Cannes e o da meca independente criada por Robert Redford. Rocha está ultimando o lançamento do seu longa-metragem Intervalo Clandestino, documentário que confronta pontos de vista sobre a política brasileira.

Myrna Silveira Brandão, 11h 44min, 05.01.06
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