O Colonialismo como pano de fundo
Myrna Silveira Brandão


Novo filme de Haneke é um thriller impressionante sobre o mundo contemporâneo.

Caché (Escondido) – novo filme no cinema polêmico e pouco convencional do cineasta alemão Michael Haneke – ganhou, no último Festival de Cannes, o prêmio de direção e também o da crítica internacional (Fipresci).


O filme segue o drama de um casal de intelectuais parisienses assediados por uma série de fitas e desenhos anônimos. Ele é George (Daniel Auteuil), um apresentador de tevê de sucesso; ela é Anne – que desenvolve um trabalho ligado a uma editora – interpretada por Juliette Binoche. Os dois formam um casal resolvido de classe média, numa vida metódica e tranqüila, repentinamente sacudida quando começam a chegar os vídeos enquadrando a frente da confortável casa onde vivem em Paris. Anne inicialmente não liga muito para o que está acontecendo, ao contrário de George, que imediatamente percebe que pode haver um elemento sinistro nas fitas.

Caché é inicialmente apresentado como um thriller comum, mas na medida em que se desenvolve, traz ecos psicológicos muito mais profundos da vida de George, com extrapolações para o seu passado e o da própria França. Eles continuam a receber mais vídeos gravados e desenhos perturbadores. Enquanto George teme pela segurança da família, também vai ter que se confrontar com seu passado e permitir que Anne conheça alguns aspectos secretos de sua vida que ela desconhecia. Logo, ela vai perceber que George não é aquele homem de família imaculado que ela imaginava. Ao empreender uma luta para entender as revelações que recebe, sua existência psicologicamente confortável vai se desintegrando aos poucos.

O filme faz uma crítica à cegueira social dos franceses, ao mesmo tempo em que também aborda a imigração argelina no país e seus choques com a repressão policial na época da guerra de libertação da Argélia colonial. Não por acaso, um dos suspeitos é um argelino que esteve para ser adotado pelos pais dos protagonistas. Numa opção narrativa à moda do ótimo Código Desconhecido, o diretor do também bem sucedido A Professora de Piano – prêmio do júri em Cannes – joga, neste seu novo trabalho, com a ambigüidade e com o sentimento de culpa das sociedades européias modernas em relação ao colonialismo, à violência e ao racismo. Haneke não está apenas interessado em criar um thriller, mas também em fornecer uma ácida visão da vida burguesa de George e Anne face à da cultura do leste e do terceiro mundo.

O desempenho dos atores é perfeito. Daniel está excelente e consegue expressar toda a paranóia de uma mente perseguida por culpas do passado. Binoche, cujo personagem parece bastante secundário no início, também está perfeita no papel de Anne, e, se não rouba o filme, chega muito perto disso. Os coadjuvantes Maurice Bénichou, Nathalie Richard e a veterana Annie Girardot – que interpreta a mãe de George – também dão o seu recado com competência e contribuem para manter o clima sombrio e tenso do filme. Caché é ao mesmo tempo um suspense intrigante com sutis pinceladas de terror e também uma maravilhosa análise da culpa e responsabilidade no conturbado contexto do mundo de hoje.

Myrna Silveira Brandão, 23h45min, 12.04.06
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