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Uma reflexão sobre a marginalidade
Myrna Silveira Brandão
Os Irmãos Dardenne voltam com seu cinema sem concessões
Em 1999 , os até então relativamente pouco conhecidos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne se projetaram internacionalmente quando o júri de Cannes deu a Palma de Ouro para o seu ácido Rosetta, deixando de lado muitos favoritos ao prêmio. Após voltar a fazer sucesso na Croisette em 2002 com O Filho, em 2005 os irmãos diretores ganharam novamente a Palma com o drama neo-realista A Criança (L’ Enfant), que vem emocionando platéias por onde passa.

A Criança segue a mesma linha dos irmãos cineastas que procuram sempre realizar projetos engajados socialmente. Como eles mesmos dizem: “o cinema tem de estar ancorado na realidade política e social”. Assim, procuram com seus filmes discutir os problemas do mundo. O filme segue Bruno (Jérémie Renier) e Sonia (Déborah François) um jovem casal de desajustados surpreendidos com a chegada de um filho indesejado. Bruno sobrevive de pequenos trambiques perambulando pelas ruas de sua cidade e quando o bebê nasce – incapaz sequer de olhar para o rosto do recém-nascido – vende o filho por cinco mil euros para adoção. “Podemos fazer outro”, diz ele à namorada. Mas pressionado por Sonia, Bruno inicia uma pequena odisséia para recuperar a criança, mas acaba preso.
Segundo os irmãos, a idéia para o filme surgiu da observação de uma jovem mãe passeando com seu bebê, aparentemente meio perdida. Os cineastas ficaram conjeturando sobre a ausência do pai e o que poderia ter acontecido com aquela mulher que andava com o carrinho sem destino aparente. No mesmo estilo empregado pela dupla nos filmes anteriores, a câmera acompanha de forma comovente os dois personagens centrais, uma pequena família à margem do mundo, totalmente sem perspectivas, aturdidos ante uma situação inesperada que possivelmente vai afetar sua liberdade. Além de concentrar sua análise nas pessoas marginalizadas pela fechada sociedade belga, o filme é também um pequeno drama
sobre a paternidade e a responsabilidade que ela traz a ponto de poder desestruturar aqueles que não estão preparados para assumi-la. Em determinados momentos, o filme quase pede ao espectador que se coloque no lugar do personagem. 
O desempenho de Renier é perfeito como o jovem desajustado e certamente contribui para criar e manter a emoção na medida em que o filme avança.
A obra dos Dardennes não procura ser conclusiva. Quando questionados sobre a etiqueta de “cinema social” em seu trabalho, eles costumam dizer que não gostam de rótulos. Queremos continuar contando de um determinado jeito as histórias que nos interessam. E também ter a possibilidade de realizar nosso trabalho sem a preocupação
de enquadrar nosso cinema na camisa-de-força dessa definição”, afirmam. Em momentos mais descontraídos, no entanto, gostam de falar sobre o enorme prazer do processo de filmagem. “O cinema faz parte de nossas vidas e quando estamos filmando, nos
entregamos plenamente ao trabalho. Ensaiamos muito com os atores e às vezes rodamos mais de vinte tomadas para retirar o melhor desempenho deles e o melhor resultado para o filme”, contam.
Antes de terem realizado Rosetta e O Filho, eles fizeram o duro e perturbador La Promesse – sobre trabalho escravo de imigrantes ilegais, principalmente africanos das antigas colônias belgas – que pegou público e crítica de surpresa na sua estréia no Festival de Toronto de 1996. Este novo trabalho é mais um filme humano e, ao mesmo tempo político dos dois diretores, que a exemplo de outros irmãos cineastas como os Taviani, os Coen e os lendários Lumière
desenvolvem em conjunto seu ofício e, no caso deles, utilizando o grande potencial do cinema como instrumento de mudança e conscientização social.
Myrna Silveira Brandão, 18h07min, 27.05.06 __________________________________________________________________________________________
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