O fim trágico de um preservacionista
Myrna Silveira Brandão


Herzog fala do seu impressionante documentário e das lembranças que tem do Brasil.

O Homem Urso (Grizzly Man) do diretor alemão Werner Herzog, participou da mostra competitiva Documentário Mundial no Festival de Sundance 2005, onde o veterano diretor, embora num festival predominantemente de jovens diretores, fez muito sucesso.


O filme – que somente agora estréia no Brasil – narra a trágica história de Timothy Treadwell, incansável e apaixonado defensor dos ursos cinzentos (grizzlies), que em outubro de 2003 foi morto pelos animais que tão ardentemente protegia. Seus restos mortais destroçados e parcialmente devorados, junto com os de sua namorada Amie Huguenard, foram achados perto do seu acampamento no Alaska.

Além de traçar um retrato forte de uma figura complexa, Herzog explora questões mais amplas, como o difícil relacionamento entre o homem e a natureza. Como o próprio Herzog revela durante a narração do filme – “eu descobri que além de um filme sobre vida selvagem, estava latente uma história de grande beleza e profundidade” – parece que havia em Treadwell, um impulso de abandonar as limitações do ser humano para se ligar mais profundamente aos ursos.

Fundador da organização “Povo Cinzento”, Treadwell foi co-autor do livro, com Jewel Palovak, “Among Grizzlies” e dono de uma personalidade controversa. Ao decidir viver tão próximo dos ursos, ele na verdade atravessava uma linha que vinha sendo respeitada pelos nativos do Alaska há milhares de anos, o que gerou uma preocupação muitas vezes manifestada por especialistas em vida selvagem. Diversas pessoas alertaram Treadwell que ele não devia romper o receio natural que os ursos têm dos humanos, ao aproximar-se em demasia dos animais.

Em trechos filmados para um documentário sobre a vida selvagem que Treadwell estava fazendo, há ursos brincando junto à sua câmera. Além de cenas captadas no material do preservacionista, Herzog entrevistou amigos, familiares e colegas, bem como diversos ambientalistas e outros especialistas no assunto. O filme é devastador e tem cenas impressionantes, acentuadas pela ótima e adequada trilha sonora do lendário guitarrista inglês Richard Thompson.

Herzog conversou conosco no Sundance sobre sua forte ligação com o Brasil – onde já esteve por diversas vezes filmando – e sobre o seu próximo filme.

O que o levou a fazer O Homem Urso?

“Era algo que estava muito perto de mim. Nós – eu e o Treadwell – tínhamos os mesmos instintos. Eu não tropecei nessa história, foi ela que tropeçou em mim. Desde o momento em que eu tomei conhecimento desse fato trágico, eu senti que queria fazer um filme sobre ele”.

O que o senhor acha que realmente aconteceu com Treadwell?

“Eu acho que ele tinha uma visão muito romântica, sentimental e até espiritual da natureza. Ele não estava no Alaska apenas para lutar contra pessoas más que vão lá matar ursos. Na verdade, essa era sua ficção.A causa foi também uma saída para ele, que estava passando por um processo difícil, envolvido com drogas, alcoolismo. Num momento em que a vida dele tinha praticamente acabado, ele descobriu os ursos e a sua vida ganhou um novo sentido.Aliás, tem uma cena no filme em que ele olha direto para a audiência e diz: eu não tinha nenhuma vida, agora eu tenho uma”.

O senhor não acha que ele tinha também um lado chegado ao obscuro?

“Sim e isso é que o fazia ser tão fascinante. Ao mesmo tempo em que a vida dele ganhou um significado com os ursos, ele se sentia perseguido por pessoas, por seres humanos.Por isso eu acho que Grizzly Man não é um filme tanto sobre a natureza selvagem, é um filme sobre nós mesmos. Não é sobre a natureza dos ursos, é sobre a natureza do homem.Homens como Treadwell, com todos os seus conflitos, sua complexidade, seu caos, enfim”.

Na medida em que queria evitar a interferência humana, ele não estava fazendo também uma interferência na vida selvagem?

“É claro que estava. Eu não fiz dele um herói, mas lhe dou o espaço merecido.Treadwell estava fazendo um filme e eu o reconheci como um cineasta. Talvez outro diretor tivesse jogado fora as cenas que ele fez, mas eu dei a elas o devido valor, elas são de uma beleza impressionante e grande parte estão em O Homem Urso.Eu gosto também de usar filmes com o poder da natureza como da Amazônia, por exemplo. Eu não filmo em estúdios, tenho horror de filmar confinado”.

O senhor tem planos de voltar à Amazônia?

“Eu amo a Amazônia. Ela não é um pano de fundo como a gente vê nos filmes americanos. Quando voamos sobre ela é que temos idéia como é imensa.Ela é um personagem, tem qualidades humanas, é um lugar de histórias, de sonhos febris. Eu acabei de fazer um filme na Amazônia, não na brasileira, mas na Guiana, na fronteira da Venezuela.Vai se chamar Diamante Branco, nome de um avião que existe por lá. Eu o fiz praticamente junto com O Homem Urso. Em última análise são dois documentários, mas também muito próximos de dois filmes de ficção”.

O senhor prefere fazer documentário ou ficção?

“Eu não vejo diferença clara entre os dois. As linhas limite entre os dois realmente não existem para mim porque eu não acredito muito em cinema verdade, em filmagem direta.Faço ensaios, refilmo, mas quando a gente vai atrás de fatos, a única verdade que se consegue é a verdade de quem está contando.Para chegar ao êxtase da verdade é preciso ir mais fundo, ser inventivo ou usar a fantasia. Essa é a razão pela qual meus documentários não são muito diferentes dos meus filmes ficcionais.O Aguirre por exemplo, embora tenha sido um personagem criado, é uma pessoa real, muito mais próxima da realidade do que qualquer outra”.

O senhor já tem em mente um próximo filme?

“Tenho um projeto para realizar um filme de ficção científica e pretendo fazer um outro no Texas, no centro espacial de Houston, sobre alguns astronautas.E publiquei um livro na Alemanha que se chama "Conquista dos Inúteis". É um livro um pouco parecido com "Heart of Darkness" do Joseph Conrad. Eu o estou mencionando porque ele vai ter uma vida mais longa do que a minha”.

Do que o senhor lembra mais no Brasil?

“Do povo, e quando eu falo do povo brasileiro eu imediatamente penso numa parte do Brasil que é o nordeste. Eu amo o povo de lá. Naturalmente eu amo o Rio de Janeiro, a Amazônia , mas o que eu amo mais é o povo do nordeste”.

E o cinema brasileiro, o senhor tem acompanhado?

“Ultimamente não tenho visto quase nada. Eu acho que no ano passado eu vi apenas três filmes. Nos últimos 20 anos, eu vi dois filmes alemães, portanto não sei muito o que está acontecendo lá.Mas não importa se eu estou ou não na Alemanha, a minha cultura é alemã, e eu a carrego para onde eu vou”.

Myrna Silveira Brandão , 14h33min , 11.06.06
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