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O canto de cisne de um diretor genial
Carlos Augusto Brandão
Saraband chega em DVD sem passar pelos cinemas.
Saraband é o filme que poderá encerrar a carreira do mestre sueco Ingmar Bergman que, numa das últimas edições de Cannes, foi votado por cineastas de todo o mundo como o maior diretor de cinema vivo.
Bergman vinha anunciando sua aposentadoria desde 1982, quando realizou o autobiográfico Fanny e Alexander; mas, de uns anos para cá, fatos de sua vida e sua carreira indicam que desta vez parece que a intenção de parar é mesmo para valer.
A começar pelo próprio tema de Saraband, uma espécie de capítulo conclusivo de uma autobiografia cinemática.
O filme retoma o clássico Cenas de um Casamento, de 1974, numa seqüência atemporal e com os protagonistas 30 anos mais velhos. Marianne e Johan, separados no filme anterior, retornam em torno dos velhos temas bergmanianos: as tensões nos relacionamentos e a rotina destrutiva, cuja inspiração remonta às brigas e discussões dos pais do diretor e que se repetiram em sua vida sentimental, com cinco casamentos e, pelo menos, oito filhos. Em seus filmes, há sempre vestígios de sua infância traumática e do seu olhar obscuro a respeito das relações amorosas. Em Saraband, os personagens – vividos pelos mesmos atores de Cenas..., Liv Ulmann e Erland Josephson – voltam a se encontrar para um romance outonal que será assombrado pela presença de uma outra mulher. Ela é Anna, título inicial de Saraband, um projeto antigo do diretor num resumo de temas recorrentes em sua extensa filmografia: a morte, o amor , o ódio, o rancor e a difícil convivência entre amantes, marido e mulher, pais e filhos e até mesmo entre as pessoas de um modo geral.
Bergman define Saraband como “uma situação difícil vivida por quatro personagens em dez diálogos”. Um prólogo e um epílogo resumido fazem parte dessa profunda análise dos relacionamentos interpessoais, expressos nos conflitos, nos sofrimentos e na lógica encontrada pelos personagens para os seus comportamentos. Ao reavivar cenas do clássico de 74, Bergman mostra Liv – uma de suas musas ao lado de Harriet Andersson, Ingrid Thulin e Bibi Andersson – mais velha, mas ainda cativante. O filme fez parte da seleção de Veneza em 2004, mas Bergman o retirou da grade do festival, sob a justificativa de que não estava satisfeito com o aspecto visual do telefilme, realizado em alta definição digital e produzido pela televisão Media Europa. 
Na verdade, o veterano diretor – autor de uma extensa filmografia que inclui clássicos inesquecíveis como Morangos Silvestres, Persona, Gritos e Sussurros, Sonata de Outono, O Sétimo Selo – está cada vez mais arredio. Vive só e isolado nas ilhas Faroë, perdidas no meio do agitado e cinzento Mar do Norte. Lá, Bergman se autodenomina de “o velho de Faroë” e vive sem contatos físicos com ninguém. Numa das últimas entrevistas expressou seu amor pelo teatro, ao tempo em que admitiu que tem com o cinema uma relação menos rica. “O teatro é começo e fim, na realidade é o todo”, afirmou. Fascinado com o silêncio e a solidão da ilha-refúgio, tem encontrado no local inspiração artística e argumento para os seus últimos trabalhos. Ali também se sente perto de Ingrid (Von Rosen) sua última esposa, falecida há dez anos e que tinha interpretado um pequeno papel – quase uma ponta – em Gritos e Sussurros. Bergman doou recentemente ao Instituto Sueco do Filme praticamente todo o seu material audiovisual coletado durante 60 anos. Composto de documentos, roteiros, anotações e fotografias, é certamente um conjunto precioso do seu trabalho como cineasta. Aos 86 anos, o diretor não perdeu o talento e a fertilidade criativa. No entanto, a doação de seu acervo, a aversão a festivais, a recusa permanente a conceder entrevistas e o total isolamento num local quase inacessível, não deixam muitas dúvidas de que a obra, a carreira e a direção já não são prioridades na vida do consagrado cineasta sueco. Saraband, pode ser mesmo o ponto final de sua brilhante trajetória no cinema. Segundo Liv Ulmann afirmou textualmente na sua entrevista no Festival de Nova York logo após a exibição do filme: “acho que ninguém o verá mais”.

Carlos Augusto Brandão, 23h02min, 08.08.06 __________________________________________________________________________________________
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