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Uma história perdida no tempo
Carlos Augusto Brandão
Crônica de uma Fuga, de Israel Adrian Caetano não é um filme fácil de assistir. Em tom próximo ao documental, revela fatos que ocorreram durante a época da ditadura militar nos centros de detenção clandestinos, onde milhares de pessoas foram torturados e muitas delas assassinadas.
Trazer esses acontecimentos à tona é o primeiro mérito do filme, que deixa no ar uma surpresa porque durante todo esse tempo, ele não havia chegado às telas.
Afinal essa história real na qual o filme é baseado aconteceu há mais de trinta anos, durante a ditadura argentina (1976-83), quando mais de 30.000 pessoas desapareceram nas tais casas de detenção. Ao explicar sua motivação para fazer o filme, Caetano diz que “o fato de a história ter um final, se não feliz, ao menos diferente do que se costuma ver nos filmes sócio-políticos foi determinante para a decisão de contá-la”.
O eixo do filme é um retorno às tragédias históricas trazendo verdades pouco conhecidas como, por exemplo, a prática da delação de inocentes pelo grupo guerrilheiro Montoneros. “Acusar pessoas que não pertenciam ao movimento objetivava proteger os ativistas. Enquanto os torturadores se ocupavam dos acusados, deixavam o campo livre para a revolução”, diz o diretor complementando que a prática é uma herança das ditaduras sul-americanas.
“Faz parte da formação socio-política dessas nações a idéia da salvação a qualquer preço”, afirma.
A história parte da prisão de Cláudio Tamburrini (Rodrigo de La Serna) – goleiro do time de uma pequena cidade – e da sua fuga com mais três companheiros de um desses centros de detenção localizado fora da capital federal.
As cenas são impressionantes. As cores, as texturas, o som e os enquadramentos se associam muitas vezes com o gênero de terror, numa estilização clássica, que remete ao cinema de John Carpenter, do qual Caetano já declarou ser um admirador. 
O diretor argentino já tinha deixado sua marca com o ótimo Um Oso Rojo e agora volta numa história bem contada, num ritmo inquietante, com boa dose de suspense e ótimos atores. O protagonista é interpretado por Rodrigo de La Serna, o excelente ator que viveu Granado em Diários de Motocicleta, de Walter Salles. No filme de Caetano, La Serna transmite com louvor o mesmo espírito indomável diante das adversidades da vida, enquanto os demais personagens estão bastante convincentes em seus sofridos papéis. A narrativa é clássica e convencional, mas não deixa dúvidas de que a história não poderia ser contada de outra forma.
Beneficiado pelo distanciamento que o tempo traz, Caetano procura não perder os elementos fundamentais dos acontecimentos, claramente evitando o risco de banalizar o tema. Ao contrário, o talentoso diretor consegue dosar na medida certa os ícones de filmes do gênero – Fuga de Alcatraz, Expresso da Meia Noite e outros – e o impacto político de uma história que precisava ser resgatada para aqueles que a viveram e contada para as novas gerações que não a conheciam, já que este tem sido um terreno pouco abordado na revisão histórica do período. A precariedade dos quatro fugitivos, sofridos e indefesos está muito bem marcada pelo diretor que pouco a pouco vai lhes devolvendo a humanidade. Ao final, os vemos em liberdade e em diferentes situações, cada um deles seguindo o seu destino. Em última análise, é fácil entender a mensagem de Caetano de que a vida segue seu rumo para os que, apesar de toda a violência sobreviveram, em memória dos que já não estão mais aqui e para aqueles que ainda virão.

Carlos Augusto Brandão, 11h20min, 15.11.06 __________________________________________________________________________________________
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