Suspense, mistério e vingança, segundo Clint Eastwood
Ensaio de Carlos Augusto Brandão


Diretor abre Festival de Nova York e mostra que está na plenitude de sua maturidade


O tema da vingança é um dos favoritos de Hollywood, os velhos westerns que o digam. Não é por coincidência, portanto, que na obra de Eastwood ele tem sido um assunto recorrente. Mystic River, seu novo filme, é um drama criminal e faz uma variação em torno do tema já que o mote principal, conforme definido pelo diretor, é o abuso sexual na infância. "Há muito queria abordar o tema da pedofilia", diz o diretor, complementando que um crime dessa natureza normalmente traz conseqüências que afetam a vida das das pessoas para sempre. O roteiro é muito bem desenvolvido por Brian Helgeland, que realizou uma adaptação do livro de Dennis Lehane. A ação de Mystic River se passa em Boston, cidade que é atravessada pelo rio do título, e acompanha a vida de trêsamigos desde a infância até a fase adulta, quando eles se reencontram após muitos anos afastados.

O filme começa com um seqüestro, seguido do abuso sexual, de Dave Boyle (Tim Robbins) quando ele era ainda garoto e brincava na vizinhança com os outros dois companheiros. O crime é praticado por pervertidos que o mantém preso e abusado por quatro dias. Após mostrar o hediondo episódio do crime, a trama dá um salto no tempo e mostra Dave, já adulto mas não recuperado do infortúnio de que foi vítima. Ele demonstra todos os sinais de que o trauma permanece. Um dos seus amigos de infância é Sean Devine (Kevin Bacon), hoje um policial. O outro é Jimmy Marcus (Sean Penn), gerente de uma pequena loja e pai da jovem Katie (Emmy Rossum). O assassinato da jovem em condições misteriosas é o motivo que vai reuni-los novamente. Penn tem um desempenho extremado que lembra em alguns momentos, o vivido por Robert De Niro em O Cabo do Medo. O cerne do destino está presente no filme em um drama humano e ambíguo, em que o embate entre o bem e o mal volta e meia é colocado em evidência. O clima é dark, os personagens são cinzentos e há um nítido sentido de crítica social aos valores seguidos pela sociedade americana.

Questionado sobre a intenção de comparar a ficção com muitas situações ocorridas nos Estados Unidos de hoje, Eastwood prefere responder indiretamente com a afirmação de que os problemas são universais e que a liberdade de expressão é importante e, como tal, deve ser preservada e exercida. O trabalho dos atores tem sido alvo de muitos elogios, com destaque para Kevin Bacon que  vive  o  policial.  A  trilha  sonora  mantém  o  clima de tragédia que permeia o filme, ajudado ainda pela ótima fotografia de Tom Stern. Completam o elenco Laurence Fisburne que faz o papel de Whitey, amigo do personagem de Bacon. Além de Laura Linney e Marcia Gay Harden, já premiada com o Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo seu ótimo desempenho em Pollock.


Quanto a Eastwood, sem dúvida alguma, ele vem realizando alguns dos melhores filmes do cinema americano atual. O diretor tem mostrado sua habilidade em vários gêneros, desde os faroestes onde nasceu como ator e responsáveis pelos primeiros elogios ao seu trabalho, até dramas pesados e criminais, casos de Perversa Paixão e agora este Mystic River. O filme foi bastante aplaudido em Cannes, onde concorreu à Palma de Ouro e Eastwood muito cultuado. Durante o festival, ele foi contemplado com o prêmio Golden Coach pela Sociedade dos Diretores de Filmes Franceses.

Carlos Augusto Brandão, 25.08.03


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