Referências e homenagem ao expressionismo alemão
Myrna Silveira Brandão


Novo filme de Soderbergh resgata ícones do cinema noir

Todo cinéfilo de carteirinha sabe que o cinema noir – que floresceu nas décadas de 40 e 50 em Hollywood – teve uma inegável influência do expressionismo alemão.


Esse fato, nem sempre muito enfatizado até então, tem seu reconhecimento expresso em The Good German, o novo filme de Steven Soderbergh. Através da utilização dos anos 40 para evocar a mesma década, The Good German – selecionado para o 57º Festival de Berlim – parece muitas vezes, estar saldando essa dívida com o cinema alemão e trazendo o filme noir de volta para casa. A ação do filme se passa em agosto de 45, logo após a conferência de Potsdam entre Churchil, Truman e Stalin, quando os aliados se encontraram pela última vez. George Clooney interpreta o Capitão Jacob “Jake” Geismer, um jornalista militar americano que vai à Berlim de pós-guerra cobrir a conferência para o veículo que escreve, nada menos do que o reacionário New Republic. Lá ele se envolve numa investigação de assassinato que inclui Patrick Tully, o motorista americano que havia sido escalado para acompanhá-lo e Lena Brandt, uma mulher casada com quem Jake tinha se envolvido, da última vez em que esteve na cidade, e por quem ainda sente uma enorme paixão. Conselhos não faltam para que Jake se afaste do caso. Não apenas de generais e policiais militares mas também da própria Lena, ao lhe advertir que nunca deveria ter voltado a Berlim.

O filme é baseado no bestseller de Joseph Kanon e foi adaptado pelo roteirista Paul Attanasio (Quiz Show, Donnie Brasco), num trabalho muito bem realizado, principalmente considerando as 500 páginas do livro de Kanon. The Good German é bem diferente dos trabalhos anteriores de Soderbergh. É o seu filme mais experimental até agora, no qual ele utiliza material de arquivo, fotografia em preto e branco, e um misto de acuidade visual com elementos retrós, remetendo ao cinema noir dos anos 40. Entre eles, a dubiedade também faz parte da trama. Enquanto os mistérios do passado de Lena deixam o espectador aturdido, Jake nunca parece ter problema de encontrar sua ficha ou ela mesma em pessoa. As referências incluem até um momento claramente assumido a Casablanca, que acontece no final do filme: uma cena tomada numa noite escura e nevoenta com um avião de fuga na pista e Lena usando um chapéu semelhante ao de Ingrid Bergman. Cate Blanchett, no papel de Lena, também buscou reviver os mitos de Marlene Dietrich e Ingrid Bergman. Tobey Maguire, que interpreta o motorista, abusa da natureza arrogante de um membro das forças de ocupação americana. A fotografia deliberadamente arcaica do próprio Soderbergh – disfarçado nos créditos sob o pseudônimo de Peter Andrews – traz uma iluminação cuidadosa, com imagens muito bem enquadradas. A música, perfeitamente adequada a esse estilo de filme, é de Thomas Newman, sobrinho de Alfred Newman, o hoje já lendário realizador de trilhas sonoras nas décadas de 50 e 60. Em última análise, o filme tem vários elementos de um filme noir da época, só que numa transferência das vielas secundárias de Los Angeles para as ruínas fumegantes de Berlim pós-guerra.


Myrna Silveira Brandão, 10h54min, 16.01.07
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