Um cinema coerente e engajado
Carlos Augusto Brandão


Nos anos 20, um acordo de paz entre Inglaterra e Irlanda formou o Estado Livre da Irlanda, embora ainda com um status de Domínio dentro do império britânico. Esse tipo de independência não era aquele sonhado pela unanimidade dos republicanos, o que resultou na cisão dos nacionalistas em 1921 e também fez com que os irlandeses, que antes lutavam contra os ocupantes ingleses, passassem a guerrear entre eles numa lamentável Guerra Civil. A raiz do acordo firmado com os britânicos – e que selou a divisão entre as duas Irlandas, a do ainda colonizado norte e a independente do sul – é o mote de Ventos da Liberdade (The Wind that Shakes the Barley), novo filme do diretor inglês Ken Loach.

A abordagem do tema por Loach se dá através dos dilemas e decisões divergentes da trajetória pessoal de dois jovens irmãos combatentes. Metaforicamente, a história vai lançar um contra o outro, numa luta literalmente fratricida, incentivada nos bastidores pelos interesses colonialistas ingleses. Um deles é o médico Damien, decidido a deixar a Irlanda para ir trabalhar num hospital de Londres. Alguns fatos começam a balançar a sua decisão: inicialmente, um leve comentário sobre ir trabalhar com ingleses, ouvido durante um jogo de hockey com os seus amigos. No entanto, após esse episódio aparentemente sem muita importância, sua idéia de partir fica mais abalada quando Damien visita a fazenda do reverendo Peggy para dele se despedir. A tropa paramilitar de repressão Black & Tans (forças irregulares inglesas formadas para impedir a independência da Irlanda no início dos anos 20) aparece de repente, anuncia que encontros públicos e jogos estão proibidos e, após um interrogatório, agride brutalmente o neto de Peggy, que se negava a falar inglês, levando-o à morte.

Logo após, um novo incidente na estação de trem quando Damien se preparava para partir, acaba por convencê-lo a ficar e lutar contra os ingleses, jurando lealdade à causa da Irlanda livre. O líder republicano Teddy, irmão de Damien, é quem mais exulta com a decisão do jovem médico. Os dois irmãos (Cilian Murphy e Padraic Delaney) a esta altura lutam juntos nas forças nacionalistas, mas não vai demorar muito para que as divergências da luta política os levem a tomar posições diferentes. Após o acordo de paz assinado entre a Inglaterra e os irlandeses insurgentes, Teddy apoia o partido dos favoráveis ao Estado Livre (como uma solução prática para a luta de independência), e Damien continua perseguindo o sonho do IRA de uma Irlanda totalmente independente dos ingleses e do chamado Commonwealth.

Ao lado do dilema entre os irmãos, o filme desenvolve um paralelo entre a política externa americana do presente e o decadente império britânico do último século. Loach, no entanto, discorda que seu filme seja antibritânico, preferindo considerá-lo como um olhar crítico em relação à postura política indevida da Inglaterra. “Eu teria muitas outras críticas para apontar e nem por isso estaria sendo contra o meu país”, afirma, ratificando que há sempre um exército de ocupação em algum país e ao qual a população local resiste. “Nem é necessário dizer em quais lugares do mundo o Reino Unido, ilegalmente, mantém um exército de ocupação mesmo hoje”, ironiza o engajado cineasta. Na verdade, Ventos da Liberdade vê nos invasores ingleses – principalmente diante da vitória precária dos nacionalistas – a origem da guerra civil que ensangüentou o país durante anos. “Fiz esse filme para aprender sobre os conflitos de hoje. As ocupações que ocorrem agora são iguais à que ocorreu na Irlanda nos anos 20 ou às que ocorreram até dez anos atrás. As lutas por emancipação se repetem todos os dias e em todos os lugares”, afirma. Assim como fez em Terra e Liberdade (1995) sobre a Guerra Civil Espanhola, Loach volta a rever a história através de uma lente microscópica, ao se fixar não tanto no contexto geral, mas procurando muito mais analisar com olhos justos e libertários as camadas internas de conflitos que parecem não ter fim.

Carlos Augusto Brandão , 14h25min, 21.04.07
__________________________________________________________________________________________


 Cena por Cena | Buscando Por | Busca por Autor | O que te interessa | Pesquisa
Livros | Promoções | Críticas e Ensaios | Entrevista | Fórum | Cursos | Links | E-mail

Copyright © 2003 Cena por Cena  -  Criação VIRTUAL Produções Web