Filme de Chan-Wook alimenta lados obscuros da psique
Myrna Silveira Brandão


Lady Vingança (Chinjeolhan Geumjassi) 2005, do sul-coreano Chan Wook, tem deixado a platéia impressionada onde tem sido exibido. O filme é o terceiro capítulo da trilogia do diretor sobre a busca da vingança iniciada em 2002 com Simpathy for Mr. Vengeance e seguida de Old Boy em 2004. São filmes para quem tem estômago forte. Num misto de violência, humor negro e imagens perturbadoras, cenas de sangue surgem a cada momento. O segundo da trilogia, embora menos violento do que o primeiro, que tinha longas sessões de tortura, mutilações e muito sangue, foi também muito forte. Apenas em algumas seqüências, as cenas foram sugeridas, mostrando o início do ato e depois suas conseqüências. Em outras, a crueza é explícita, como na cena em que o personagem come vivo um pequeno polvo inteiro. O terceiro, que fecha a série, segue a mesma linha dos anteriores.

Lady Vingança segue Geum-ja (Lee Young), uma mulher aparentemente inofensiva, mas que na realidade é, ou se tornou, sádica e cruel. Ela havia passado 13 anos na prisão depois de ser condenada por um crime que não cometeu. Quando é libertada, além de tomada por uma raiva feroz, ela persegue obsessivamente o seu desejo de vingança e nada vai detê-la. Numa trajetória pontilhada de humor negro e violência, persegue sem tréguas, o assassino real do crime pelo qual foi condenada.

Chan-wook vai construindo um mundo de trevas com elementos que ajudam a compor a sombria atmosfera do filme: luz escurecida, fotografia cuidada, música tocada de forma estranha, clima seco e frio. Mesmo assim, não há glorificação da violência nem julgamentos morais. O diretor deixa essa parte a cargo da mente do espectador, mas a intensidade na busca incessante de conseguir a vingança fala por si. Para Chan-wood, face ao desenvolvimento da civilização e ao acesso à educação, as pessoas podem até esconder sua raiva, mas não significa que as emoções vão embora. Pelo contrário, a raiva pode crescer, e é normalmente o que acontece. O diretor ressalva, no entanto, que a vingança não satisfaz ao vingador: ao contrário, pode causar mais dor e sofrimento. “Mas normalmente a pessoa não consegue deixar de buscar a vingança, as pessoas são assim”, afirma.


Uma seqüência propõe uma espécie de redenção, quando é oferecido para Geum-ja um prato de tofu branco. Tradicionalmente, ele é oferecido para recém libertos na Coréia para marcar simbolicamente o início de uma vida nova, longe da criminalidade. Chan-Wook acha que o sucesso que os filmes da Coréia do Sul têm obtido ultimamente no ocidente se deve ao fato deles retratarem aspectos da rígida sociedade sul-coreana, além de abordarem temas arrojados e fora do convencional. “Existe uma energia nos filmes coreanos que normalmente não é encontrada em filmes de outros países”, afirma o diretor, que estreou no cinema em 1992 com A Lua é o Sonho do Sol. Chan-Wook é muito popular em seu País, onde um de seus filmes Joint Security Área, de 2000 – sobre amizade entre soldados dos dois lados da fronteira nas Coréias do Norte e do Sul – teve uma das maiores bilheterias do cinema sul-coreano.

Myrna Silveira Brandão, 22h29min, 16.05.07
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