Um Desempenho Memorável
Atriz rouba a cena em drama sul coreano

Carlos Augusto Brandão


Há filmes marcados pelo trabalho de certos profissionais, que nem sempre é o caso do diretor ou da diretora. Como exemplos, podem ser lembrados: aqueles de roteirista (caso de Dalton Trumbo em Spartacus), de fotógrafo (Nestor Almendros em Cinzas no Paraíso), de ator (Marlon Brando em Um Bonde Chamado Desejo) e até de produtor (David Selznick em O Vento Levou).


Secret Sunshine, novo filme de Lee Chang-dong é um filme de atriz, no caso de Jeon Do-yeon, vencedora, com muita justiça, da Palma de Ouro no último Festival de Cannes. No filme – selecionado para a 45ª edição do Festival de Nova York – Jeon vive Lee, uma viúva nos seus 30 anos que deixa Seoul com seu jovem filho Jun (Seon Jeong-yeob) para começar nova vida na localidade sulista de Milyang – título coreano do filme, que literalmente significa brilho secreto – cidade natal do seu falecido marido. Lee havia se casado muito cedo e deixado para trás uma promissora carreira de pianista de concerto. Agora ela pretende instalar, na cidade que escolheu para viver, uma escola de piano para crianças. Logo, no entanto, Lee descobre que não encontrará em Milyang a sonhada tranqüilidade que imaginava e que as pessoas da cidade também não são o que ela pensava.

Pistas do roteiro indicam os problemas que vão surgindo: mexericos escondidos sob sorrisos sarcásticos dos habitantes locais; a insistência de Jong-chan – um chefe de oficina que havia ajudado Lee quando seu carro quebrou na periferia da cidade – em lhe vender um pedaço de terra, levantando suspeitas de outras intenções; sem falar em alguns moradores que insistem em tentar convertê-la aos ritos evangélicos. Mas o pior de tudo ainda viria. Um fato trágico vai atingir a jovem mulher e mudar radicalmente o rumo do filme. Após sofrer um seqüestro, seu filho Jun é assassinado. Aproveitando a fragilidade de Lee com a perda do filho, um farmacêutico consegue convencê-la a ir a um encontro cristão, no que é acompanhada pelo insistente Jong-chan. É nesse momento da história que a jovem atriz coreana deixa aflorar todo o seu talento. Lee passa repentinamente de um ser humano dominado pela tristeza e frustrações para uma mulher totalmente renascida e conformada, a ponto de ir à prisão perdoar o assassino do seu filho, por sinal uma parte da trama que não fica muito bem explicada.

A partir daí, o filme passa a ser totalmente de Jeon, cujo crédito do bom desempenho, no entanto, pode ser atribuído também ao talento de Chang-dong para dirigir atrizes. Não deve ter sido a toa que a atriz Moon So-ri, ganhou o prêmio da categoria no Festival de Veneza pelo seu desempenho em Oásis, filme que o diretor realizou em 2002. Embora não comprometa totalmente o resultado, a trama perde algum foco, devido à quantidade de vertentes buscadas pelo diretor: Secret Sunshine pode ser definido como o drama de uma mulher que deseja sua emancipação; ou como a história de uma comunidade rural com seus problemas latentes; ou como um thriller criminal; ou ainda como um filme sobre a religião e seu papel de lenitivo e refúgio para as grandes perdas da vida. Nesse último aspecto, por sinal, o diretor traça um retrato bastante desconhecido para a maioria, da existência na Coréia, de uma forte e atuante corrente evangélica. Chang-dong, por sua vez, tem preferido definir seu novo trabalho, dentro de uma abrangência maior. “Secret Sunshine é uma história sobre o ser humano, muito mais do que sobre religião”, explica o diretor de Peppermint Candy, realizado por ele em 2000 e, até o momento, seu melhor filme.


Carlos Augusto Brandão , 23h32min, 19.07.07
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