Filosofia e humor negro
Myrna Silveira Brandão


Irmãos Coen acertam a mão em seu novo trabalho.

No Country for Old Men, novo trabalho dos irmãos Joel e Ethan Coen, é mais um a ir fundo nos padrões de violência da cultura americana.


O filme, concorrente à Palma no Festival de Cannes e destaque da 45ª edição do Festival de Nova York, é baseado na obra do escritor Cormac McCarthy. O livro, que traça um retrato indelével do oeste americano, foi brilhantemente adaptado pelos Coen, de forma respeitosa, mas não totalmente restritiva. Com algumas liberdades cinemáticas, os irmãos cineastas tornaram a história mais curta e, com muita competência, imprimem ao filme seu próprio toque.

A história, que acontece em 1980, gira em torno de um negócio de drogas que deu errado e as tentativas de um homem violento e sem rumo de conseguir lucros não muito honestos. Anton Chigurh (Javier Bardem) é um matador profissional. A morte caminha de mãos dadas com ele, onde quer que vá, a menos que ele mesmo decida o contrário. Homem lúcido e direto, Chigurh considera qualquer um que cruze o seu caminho como passível de violência. Ocasionalmente, num ato extremo de sadismo, ele chega a permitir que sua vítima jogue uma moeda para cima que – a depender do lado que caia – determinará seu destino, ou seja, a morte ou a libertação.

O filme já começa com seqüências surpreendentes. Chigurh é suspeito de ter cometido um crime e está sendo levado preso por um policial. Numa operação rápida, estrangula-o com suas algemas e, depois de matar um motorista com uma arma de tocar boi para roubar o seu carro, consegue fugir. Enquanto isso, um caçador Llewelyn Moss (Josh Brolin) encontra cinco caminhões, diversos cadáveres cobertos de tiros, um enorme carregamento de drogas e uma mala com dois milhões de dólares, que rapidamente ele se apossa num só impulso. Essas figuras centrais vão ser unidas por Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), o xerife local. É impressionante a carnificina que se segue a cada ação, essencialmente focalizada em três pessoas brincando de gato e rato, através de uma paisagem linda e brutal. São três homens num quarto de motel errado, num momento errado e um intermediário arrogante – o personagem de Woody Harrelson – aparentemente o dono real do dinheiro desaparecido, que comete o erro fatal de se colocar diante do assassino, que está em busca de Moss.

A maneira como a narrativa avança é chocante e praticamente impossível de ser prevista. Os espectadores que não leram o bestseller de McCarthy serão surpreendidos pelas situações colocadas na tela e algumas vezes ficarão assustados só de imaginarem o que poderá vir a acontecer nas cenas seguintes. Aqueles que conhecem a história se sentirão gratificados de ver um livro fantástico ser transposto para as telas com tanta inteligência.

Nas liberdades que se permitiram – e dentro do interesse do tempo do filme – os Coen eliminaram uma figura especialmente interessante do livro, mas mesmo assim honraram os temas sérios de McCarthy, a integridade de seus personagens e suas intenções essenciais. Além disso, criaram um senso de antevisão para o final do filme sem terem a mão pesada ou pretensiosa. É notório que a experiência adquirida em trabalhos anteriores ajuda, já que eles têm trabalhado no gênero do crime desde seu primeiro filme Gosto de Sangue (Bloody Simple), cuja seriedade talvez se aproxime bastante deste novo trabalho, embora em alguns momentos, haja pinceladas também de Ajuste Final (Miller’s Crossing) e Fargo. Cumpre lembrar ainda e, a bem da justiça, que o bom resultado se deve muito também a Bardem, que criou um dos vilões mais originais e memoráveis dos anos recentes. O título do filme é tirado do poema do irlandês W. B. Yeats “Sailing to Byzantium”, que começa com a frase “That is no country for old men...”.


Myrna Silveira Brandão, 23h27min, 07.08.07
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