Joaquim Pedro em longas e curtas
Carlos Augusto Brandão


Joaquim Pedro de Andrade completaria 75 anos em 2007, não tivesse morrido tão precocemente em 1988 aos 56 anos, sem ter realizado um dos seus sonhos – filmar Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, considerado um dos marcos sociológicos na culturabrasileira. Sua obra, no entanto, deixou um registro marcante no cinema brasileiro e muitos traços de memória na nossa cultura, não só nos diversos tipos que retratou, mas também nas muitas adaptações literárias que realizou.


Joaquim Pedro era afilhado de Manoel Bandeira, tendo convivido desde a infância com alguns dos mais expressivos escritores brasileiros como Lúcio Cardoso, Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade. Assim, buscava na obra literária uma fonte para entender o Brasil e a realidade brasileira da época e – como disse certa vez numa entrevista à jornalista Sylvia Bahiense – considerava que o vigor da originalidade estava em tratar os problemas brasileiros como eles são e como se apresentam. Essa originalidade que caracterizou sua carreira, está sendo reconhecida no tributo que a 45ª edição do Festival de Nova York presta a Joaquim Pedro, numa completa retrospectiva de sua obra, através da exibição de seus oito curtas-metragens e seis longas. A mostra tem início com a exibição de seus primeiros curtas, Vi>O Mestre de Apicucos e O Poeta do Castelo, sobre dois grandes escritores brasileiros em meio às atividades da rotina diária: o sociólogo Gilberto Freire e o poeta Manuel Bandeira. Os dois filmes, inicialmente realizados juntos, passaram depois a serem mostrados separadamente.

Como não podia deixar de ser, faz parte da seleção, o já clássico Couro de Gato, que articula documentário e ficção na história de meninos da favela na época do carnaval. O filme foi escolhido um dos 11 curtas mais importantes entre os que integraram a mostra Um Século de Curtas promovida pelo festival de Clermont-Ferrand na França. Couro de Gato também acabou incluído no longa episódico Cinco Vezes Favela, junto com trabalhos de Leon Hirszman, Miguel Borges, Cacá Diegues e Marcos Faria. A mostra de curtas é complementada por: Brasília, Contradição de uma Cidade e Cinema Novo, (ambos de 67); A Linguagem da Persuasão, um comercial realizado para o Senac em 1970; Vereda Tropical (77); e O Aleijadinho, que ele realizou em 78, retomando os passos do início de sua carreira, quando participou em Congonhas do Campo, da equipe de restauração dos Passos da Paixão, do artista mineiro.

Entre os longas-metragens, os destaques são o cultuado Macunaíma, adaptado de uma das obras-chave do modernismo brasileiro de Mario de Andrade, com ácidos comentários sobre a realidade brasileira do final dos anos 60; e O Padre e a Moça,baseado no poema de Carlos Drummond de Andrade, “Negro Amor de Rendas Brancas”. Estrelado por Helena Ignez e Paulo José – em seu primeiro papel no cinema – o filme é considerado por muitos a obra prima de Joaquim Pedro. A mostra de longas se completa com Garrincha, Alegria do Povo (62), Os Inconfidentes (72), Guerra Conjugal (75), e O Homem do Pau Brasil (82), seu último filme e no qual volta a se debruçar no modernismo brasileiro. Como afirma Alice Andrade, filha do cineasta, a obra de Joaquim Pedro é ainda pouco conhecida no Brasil e no exterior. Embora tenha sido um diretor profundamente coerente na evolução do seu trabalho, seus filmes são incensados mas poucos vistos, o que dá um valor a mais para essa retrospectiva, que exibe a filmografia completa de um nome extremamente representativo da cinematografia brasileira.


Carlos Augusto Brandão, 23h50min, 03.09.07
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