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Quadrinhos e cinema numa história autobiográfica
Myrna Silveira Brandão
Animação tem como pano de fundo a revolução islâmica
A cineasta Marjane Satrapi, uma franco-iraniana de 37 anos, cresceu em uma família de Teerã ocidentalizada e moderna, onde estudou numa escola francesa. Bisneta do antigo rei da Pérsia, ela era apenas uma criança, quando a revolução islâmica derrubou o Xá do Irã, em 1979. Com a chegada dos fundamentalistas religiosos ao poder, Satrapi se viu obrigada a usar o véu na escola e a estudar em classes separadas dos meninos. Era só o início de uma série de mudanças profundas em sua vida, assim como na de todos os habitantes de seu país.
Essa história – que contrapõe uma França liberal a um Irã opressor – é o tema de Persépolis, animação que dividiu com o drama intimista Luz Silenciosa, de Carlos Reygadas, o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes.
Persépolis, selecionado para a 45ª edição do Festival de Nova York, é adaptação para as telas da HQ homônima e autobiográfica de Satrapi, que dirigiu o filme com seu companheiro e também cartunista Vincente Paronnaud. A história segue uma espirituosa jovem (Gabrielle Lopes), filha única criada com amor e encorajada a ser independente pelos pais, os educados intelectuais, Ebi (Simon Abkarian) e Tadji (Catherine Deneuve), que emprestou sua voz para dublar o filme. A jovem vê a existência secular de sua família mudar para uma paranóia teocrática, com lances autoritários e idiotices altamente repressivas como por exemplo, a implantação no cotidiano da família, de uma ridícula ordem do dia. 
O Iraque começa uma guerra com o Irã que durou oito anos e a cultura fanática do martírio domina juntamente com a vingança. Em casa todos precisam ser cuidadosos, com o perigo sempre rondando. Amigos e parentes foram para a prisão ou enfrentaram situações até piores. Preocupados com a natureza rebelde da filha e temendo pela sua segurança, os pais a mandam para Viena, sozinha, aos 14 anos de idade. A turbulência da vida de Satrapi está apenas começando, numa situação em que as pessoas, assim como os países, têm que aprender duramente o que funciona e o que não funciona.
A diretora diz que seu filme tem um olhar humano. “É a versão de fatos da minha vida. Claro que essa exposição determina com que eu fique aberta para eventuais contestações e críticas ao filme”, reconhece. Contado na primeira pessoa, Persépolis mostra um lirismo atrevido, expressando ao mesmo tempo uma grande alegria e uma imensa tristeza. Embora narre a tragédia que foi a implantação do regime teocrático no Irã, não faltam à trama humor e sarcasmo para narrar os acontecimentos políticos de um ponto de vista único, que desfaz os lugares-comuns sobre o país e conta sua história antiga e recente. A voz de Satrapi, tanto como adolescente e depois como adulta, é dublada pela voz da atriz Chiara Mastroianni, filha de Catherine e Marcelo Mastroianni. A animação traduz perfeitamente o desenho de Satrapi enganosamente simples e em preto e branco. Mas a aparente simplicidade dos seus desenhos e da narrativa, revela as nuances de um complicado processo histórico, que continua seus desdobramentos. Afirmando que a literatura e a música tiveram mais influência em seu trabalho do que as HQs, Satrapi diz que de qualquer forma, entre suas preferências ligadas aos quadrinhos, a mais forte é o trabalho de Art Spiegelman, de Maus”. Influências à parte, a verdade é que, da mesma forma que a série de quatro volumes de livros gráficos no qual o filme é baseado, o ensaio autobiográfico de Satrapi é arte da mais alta qualidade.

Myrna Silveira Brandão, 21h05min, 07.10.07 __________________________________________________________________________________________
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