|

O viés documental de um drama de ficção
Carlos Augusto Brandão
As conseqüências da ditadura como pano de fundo
Os traumas e sofrimentos ocorridos durante os anos da ditadura de Nicolau Ceausescu na Romênia, já haviam sido abordados brilhantemente no filme A Morte do Dr. Lazarescu, de Cristi Puiu. Quatro meses, três semanas e dois dias (4 luni, 3 saptamini si 2 zile), do também romeno Cristian Mungiu – Palma de Ouro em Cannes e selecionado para a 45ª edição do Festival de Nova York – é outro filme que segue a mesma linha. Ambos os trabalhos são fortes e mostram um cinema que já vem adquirindo uma assinatura, através das tomadas longas, perfeito controle da câmera e diálogos que de tão reais dão a impressão de estarmos assistindo a um filme documental. Se Puiu abordava o kafkiano caminho percorrido por um doente terminal pelos hospitais públicos, Mangiu, por sua vez, fala do caso de um aborto clandestino, através do drama vivido por duas mulheres, durante o período Ceauscescu.
Elas são as amigas Gabita (Laura Vasiliu) e Otília (Anamaria Marinca), que dividem um dormitório universitário. Gabita está grávida e os quatro meses, três semanas e dois dias do título do filme se referem ao seu período de gestação até então. O outro personagem chave na história é Mr. Bebe (Vlad Ivanov), um aborcionista ilegal e de baixíssimos princípios, que fica contrariado e resolve se aproveitar da situação ao descobrir que a jovem está com a gravidez muito mais adiantada do que havia dito quando o procurou. Além de aumentar o preço que cobraria para realizar o aborto, exige favores sexuais das duas mulheres que, sem condição de outras alternativas, acabam se submetendo. 
O filme mostra os estupros rapidamente consumados em seqüências constrangedoras, bem como o início do aborto realizado por Mr. Bebe. A câmera fica fixa durante um longo plano mostrando o corpo de Gabita esticado, se estendendo através da tela inteira. Após inserir um tubo e injetar algum fluído na jovem, Mr. Bebe diz a elas o que fazer quando o feto for rejeitado e vai embora. Apesar das cenas fortes, ao abordar o polêmico tema do aborto, Mungiu não procura impactar como foi, por exemplo, o caso de Vera Drake, de Mike Leigh. As comparações com o cinema de Leigh se restringem à busca de um viés similar, através da concentração intensa num personagem, no caso a da jovem Gabita. A propósito, o desempenho da atriz é extraordinário, não apenas na forma como ela consegue transformar os diálogos do roteiro em fala real, mas também na habilidade de expressar todas as suas lutas internas, na maior parte das vezes, através do silêncio. É clara a intenção do diretor de expressar – através de histórias profundamente humanas e límpidas – o enorme peso dos compromissos destruidores da alma das pessoas durante períodos ditatoriais. Mangiu consegue efeitos milagrosos com sua câmera observadora e discreta, mostrando tudo que é necessário, sem se transformar num exercício de voyeurismo. Suas tomadas, mesmo quando em cenas exteriores, se mantém claustrofóbicas. A noite parece ser sempre ameaçadora e as cores são em tons cinzentos, de forma a acentuar a feiúra esmagadora da vida naquele local. Depois de ter realizado três curtas-metragens, o diretor consolida neste filme o seu talento já mostrado no seu primeiro longa-metragem Ocidente, uma comédia de humor negro, sobre pessoas com objetivos, esperanças, sofrimentos e sonhos. Em ambos, Mungiu percorre o tênue fio entre uma história ficcional e os dramas da vida real.

Carlos Augusto Brandão, 23h50min, 25.10.07 __________________________________________________________________________________________
|