Uma merecida homenagem
Carlos Augusto Brandão


Cineasta italiano recebe Urso Honorário pelo conjunto da obra

Em boa hora – e já era tempo – o cineasta Francesco Rosi recebe, na 58ª edição do Festival de Berlim, um Urso de Ouro honorário pelo conjunto da obra, acompanhado de uma retrospectiva dos seus principais filmes.


Napolitano nascido em 1922, Rosi abandonou os estudos de Direito para trabalhar no rádio e no teatro. Em 1948, se decidiu pela carreira no cinema, inicialmente como roteirista e assistente de direção, tendo nessa época, trabalhado com Antonioni e Visconti, entre outros. Rosi é um dos poucos remanescentes – ao lado de Mário Monicelli e Marco Bellocchio – de uma época de ouro do cinema italiano.

Ao anunciar o tributo, Dieter Kosslick, diretor do festival, lembrou que ainda hoje, os filmes de Rosi continuam convencendo por sua força explosiva. Na verdade, a obra do consagrado diretor italiano é peculiar não apenas pelas histórias que narra, mas também pelo fio tênue entre ficção e realidade que imprime ao seu trabalho. Assim, em sua filmografia, as cenas não são montadas apenas para criar tensão ou emoções na platéia, como costuma acontecer nos filmes de Hollywood, mas sim para ir mostrando, como num painel seqüencial, o cotidiano real dos personagens em situações que se sucedem como num documentário ou numa crônica. Em última análise, seus filmes retratam a vida das classes populares, numa condição sócio/econômica real, como no caso específico da Itália logo após a guerra.

Não é à toa, portanto, que muitos dos filmes de Rosi, ao retratarem temas importantes da história recente italiana e européia, resultaram em debates públicos acalorados mundo afora. Como diz Rainer Rother, Diretor Artístico da Cinemateca Alemã, responsável pela curadoria da retrospectiva, “O trabalho de Rosi nunca deixa de mostrar um grande engajamento e continua tendo um enorme impacto hoje em dia, um fato que sublinha a grandeza dos seus filmes como obra de arte”. Seus filmes procuraram espelhar ainda os conflitos entre o norte rico da Itália e o sul agrícola mais pobre, como foi o caso de Cristo si è Fermato a Eboli (1979) com Gian Maria Volonté e Irene Papas. Em 1983, saiu momentaneamente do seu estilo político, realizando Carmen, a ópera de Bizet, com a regência de Lorin Maazel. Mas retorna ao seu estilo na Berlinale de 1961 com O Bandido Giuliano, com o qual Rosi recebeu o Urso de Prata de melhor diretor.

Na retrospectiva, Berlim apresenta uma seleção de 13 filmes, incluindo O Caso Mattei,, de 1971, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, naquele ano; Lucky Luciano, o Rei dos Chefões (1973), que mostra como os poderes político e econômico das estruturas italianas estão interligados com a máfia; e Três Irmãos (1981), onde ele renovou estética e tematicamente sua obra, passando a dar mais atenção à vida interior de seus personagens. O último trabalho do grande diretor, que está com 85 anos, foi A Trégua, uma autobiografia de Primo Levi, realizado em 1997. O filme concorreu à Palma em Cannes e ganhou o Prêmio de Audiência na Mostra Internacional de São Paulo daquele ano.

A homenagem na Berlinale dá o incontestável reconhecimento ao representante de um dos ciclos mais importantes da cinematografia italiana e universal, já desfalcada de nomesinesquecíveis como Fellini, Visconti, De Sica, Rosselini, Antonioni, Leone e tantos outros.

Carlos Augusto Brandão, 13h42min, 12.01.08
__________________________________________________________________________________________


 Cena por Cena | Buscando Por | Busca por Autor | O que te interessa | Pesquisa
Livros | Promoções | Críticas e Ensaios | Entrevista | Fórum | Cursos | Links | E-mail

Copyright © 2003 Cena por Cena  -  Criação VIRTUAL Produções Web