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Formada
em cinema pela Universidade Federal Fluminense em 1986, participou em mais
de uma centena de projetos e cursos na área de produção
musical e cinematográfica no Brasil, Cuba e México.
Trabalha na produção de filmes, obras teatrais, vídeos,
telenovelas, programas seriados e exposições, com serviços
realizados para The Museum of modern Art, NY, o Museu da Imagem e do Som,
RJ e para a Rede Globo de Televisão, RJ.

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Introdução
O objetivo do curso que
pretendemos desenvolver é estabelecer semelhanças e diferenças
do cinema político (engajado) feito na América Latina, na década
de 60.
Os países escolhidos foram Argentina, Bolívia e Brasil por suas
semelhanças estruturais durante esse período, já que
os três países viviam sob regimes ditatoriais.
Dentro desse contexto procuramos estabelecer ou não ligações
no projeto de fazer cinema dos seguintes cineastas: Octavio Getino, Fernando
Solanas e os integrantes do grupo Cine Liberación que faziam um cinema
clandestino na Argentina, Glauber Rocha e os cineastas do Cinema Novo no Brasil
(com o seu projeto de conscientização) e o cinema-verdade de
Sanjinés na Bolívia.
É importante ressaltar que os cineastas do Novo Cinema latino-americano
desenvolviam trabalhos teóricos paralelos a feitura dos filmes organizando
seus pensamentos em verdadeiros manifestos. Como é o caso do texto
Hacia um tercer cine do grupo Cine Liberación e da "Estética
da fome" de Glauber Rocha que tornou-se a grande bandeira do Cinema Novo.
O Cinema Novo ou os Cinemas Novos desenvolveram-se num contexto de transformações
nacionais e mundiais. Glauber fazia questão de ressaltar que o Cinema
Novo é um fenômeno dos povos coloniais e não uma entidade
privilegiada do Brasil: "onde houver um cineasta disposto a filmar a
verdade e a enfrentar os padrões policialescos da censura, aí
haverá um germe vivo do Cinema Novo". E foi isto que ocorreu na
América Latina como um todo.
Durante o período 60/64 produziu-se uma média de 30 filmes por
ano. Foram feitos importantes filmes do Cinema Novo como Deus e o Diabo na
terra do sol e Barravento, ambos do Glauber Rocha, Ganga Zumba de Cacá
Diegues e Vidas Secas do Nelson Pereira dos Santos. No núcleo da Bahia,
Orlando Senna e Geraldo Sarno fizeram um filme que fazia parte de um espetáculo
teatral cinematográfico "Mutirão em Novo Sol", que
posteriormente foi totalmente destruído pela censura.
Essa efervescência cultural durou basicamente até o golpe militar
de 1964, mas apesar da repressão pós golpe surgem vários
focos de resistência como o Teatro Oficina, o Teatro de Arena e o Teatro
Opinião. No cinema temos filmes significativos como Terra em transe
de Glauber Rocha de 1967, O desafio de Paulo César Saraceni de 1965,
O padre e a moça de Joaquim Pedro de Andrade de 1966 e Os fuzis de
Ruy Guerra de 1965.
O ano de 1968 foi o ano do "golpe dentro do golpe", a ditadura instala
uma censura mais rigorosa com o AI-5. Começam as perseguições
mais violentas a qualquer forma de liberdade de pensamento .
Essa situação que toma conta da América Latina, de censura
e de resistência, leva os cineastas dos Cinemas Novos a optarem pelo
povo ainda que de maneiras diversas.
No Brasil, no manifesto "A estética da fome" Glauber Rocha
propõe o aproveitamento das falhas técnicas para a construção
de uma estética própria ao cinema nacional. "Uma câmera
na mão, uma idéia na cabeça". Mas, as "falhas"
não foram absorvidas pelo público como estética, mas
como falhas mesmo. O Cinema Novo com sua estética da fome provoca a
perda de público, pois o público preferia sonhar com Hollywood
, ou rir com as chanchadas de Oscarito e Grande Otelo, ao invés de
se ver retratado em um cenário agreste como o de Vidas Secas. A linguagem
do "Novo" também não era de fácil assimilação.
Por ingenuidade ou por erro dos cineastas, "A estética da fome"
não foi vista, nem sentida, nem levou seu público alvo, o povo,
à revolução.
Já os integrantes do Centro Popular de Cultura só acreditavam
na capacidade de modificação da sociedade através da
sua arte popular, a "revolucionária". A opção
desse grupo era "feito pelo povo, para o povo e sobre o povo", mas
isso não ocorreu porque o público acabou sendo o estudantil
que não poderia ser chamado exatamente de povo.
No caso do Brasil os 2 grupos, o do Cinema Novo e o do Centro Popular de Cultura
tinham o mesmo objetivo, atingir o povo, coisa que ambos não conseguiram.
Talvez o Centro Popular de Cultura tenha conseguido atingir um pouco mais
o povo quando seus integrantes encenaram peças na rua, já o
Cinema Novo restringia-se aos circuitos das salas exibidoras que limitava-se
a uma platéia formada por intelectuais, estudantes e profissionais
liberais. Um dos pontos de divergência entre os 2 grupos era a linguagem.
Os integrantes do "Novo" achavam que os integrantes do Centro Popular
de Cultura "recheavam" formas populares com conteúdos políticos,
os integrantes do CPC consideravam a linguagem do "Novo" hermética.
Já na Bolívia a história é muito diferente. Jorge
Sanjinés faz um cinema com, pelo e para o povo. Antes de entrarmos
propriamente no cinema de Sanjinés é importante citar o cinema
de Jorge Ruiz e Augusto Roca com uma preocupação de identificação
cultural ( Vuelve, Sebastiana é de 1953). Na década de 60 surge
o cinema de Sanjinés e do grupo "Ukamau" - que significa
assim seja - que retoma a temática indigenista, de resistência
cultural iniciada por Ruiz.
Em seus filmes Sanjinés não utiliza atores profissionais, todos
que participam são camponeses e operários que viveram aquilo
que está sendo mostrado na tela. Os índios e os camponeses são
personagens e público. Sanjinés faz um cinema junto ao povo
que é visto por ele. Como antecessores do trabalho de Sanjinés
podemos apontar Medvekine, Dziga Vertov, Eisenstein e Joris Ivens. Esses cineastas
influenciaram Sanjinés de maneiras diversas. Medvekine foi um dos iniciadores
do cinema revolucionário. Em 1932 dirige um "trem cinematográfico"
que percorre a URSS filmando com operários. De Vertov, Sanjinés
utiliza a idéia de cinema-verdade, o abandono da utilização
da maquiagem, de atores e cenários para captar a vida real. Vertov
faz a reprodução documental da vida filmada "de repente".
Eisenstein está presente no cinema de Sanjinés quando este utiliza
a idéia do "pars pro toto", do personagem-massa.
Esteticamente os dois utilizam muito o plano-seqüência, no caso
de Sanjinés essa utilização faz-se necessária
para não interromper o trabalho dos personagens-atores.
Já Joris Ivens vive os fatos, e dessa vivência faz seus filmes,
transformando-os em um instrumento de luta do povo. A influência de
Ivens em Sanjinés se dá na própria temática. Os
dois fizeram em épocas diferentes, cada um, um filme sobre uma greve
de mineiros. Ivens fez em 1935 Borinage filme que retrata uma greve de mineiros
ocorrida na Bélgica. Sanjinés fez em 1971 "A coragem do
povo" filme sobre uma greve ocorrida nas minas do século XX na
Bolívia. Outro ponto comum é que ambos tiveram que encenar as
greves pois quando Ivens chegou ao local a greve já tinha acabado.
Sanjinés trabalhou com pessoas que tinham feito a greve e agora revivem-na
e fazem relatos.
O cinema de Sanjinés se utiliza da idéia do " pars pro
toto", mesmo que no filme estejamos vendo um personagem ele fala por
"um todo". Não existe uma identificação com
o "mocinho" porque os personagens representam os interesses de um
grupo. Em seu cinema a idéia de herói inexiste, porque o seu
cinema só passa a ter sentido se falar do coletivo, porque o índio
ou o camponês boliviano (público ao qual pretende atingir) só
pensa e age no plural. Essa idéia do personagem coletivo é muito
nítida no filme O sangue do condor. Há uma grande utilização
de closes mostrando o drama individual do "personagem principal",
mas esses closes são intercalados com planos gerais da comunidade e
mostra que o drama individual faz parte dela. Ainda sobre O sangue do condor
é importante falar da mobilização popular que o filme
causou. Nesse filme Sanjinés critica a presença norte-americana
na Bolívia. Os Corpos da Paz (enviados pela aliança para o progresso)
desenvolviam um trabalho de esterilização nas índias
sem que elas soubessem. Ao tomarem conhecimento ocorreu uma mobilização
popular que expulsou os americanos da Bolívia.
O filme atinge seu objetivo a partir do momento que catalisa uma reação,
mas em nenhum momento é um filme didático, paternalista. O povo
se organizou porque se viu retratado na tela, se identificou com o drama retratado.
Vendo esse filme é difícil manter um "distanciamento"
das imagens, os movimentos de câmera nos levam a uma identificação
com os personagens da comunidade indígena, é como se passássemos
de espectadores para protagonistas da ação. A paisagem e a música
nos levam a uma projeção-identificação, mesmo
que sejamos urbanos e completamente diferentes da comunidade retratada, a
própria dissemelhança nos leva a uma "torcida".
Esse filme foi proibido pelo regime militar boliviano no dia da estréia
porque "mostrava de uma maneira ruim uma potência amiga",
mais foi exibido pouco mais tarde graças a pressão da opinião
pública boliviana.
Para Sanjinés a melhor forma de contar a história é a
reconstituição dos fatos, a experiência direta. É
necessário que haja uma entrega emocional por parte do espectador,
fazendo com que ele se identifique com o humano, fazendo-o participar através
de sua própria experiência.
A década de 50
foi também muito importante na Argentina para o surgimento na década
de 60 de grupos como o Cine Liberación.
Em 1956 foi criada a Escola de Cinema de Santa Fé, dirigida por Fernando
Birri, documentarista argentino que em 1958 dirige um marco do cinema documentário
argentino Tiré Dié. A importância desse filme é
tamanha que o grupo Cine Liberación utiliza um trecho deste filme em
La hora de los hornos.
O grupo Cine Liberación caminhava para o resgate da memória,
não só do povo argentino, mas preocupava-se em mostrar como
a realidade vinha sendo encarada por intelectuais e estudantes.
La hora de los hornos é o primeiro filme feito pelo grupo, foi rodado
clandestinamente na Argentina de 1966 a 1968 e só foi liberado em 1973
quando Getino, um dos diretores do filme, teve sob seu encargo a política
de qualificação cinematográfica (a censura Argentina).
"O filme partia para a erupção da militância popular
e não limitava-se somente a denúncia dos problemas. Ativistas
e dirigentes de sindicatos, dirigentes estudantis e políticos falam
de suas histórias, de suas memórias, e também de seus
projetos para uma sociedade mais livre e mais justa".(notas sobre cine
argentino y latino americano - Getino)
O grupo Cine liberación estabeleceu uma divisão de 1o , 2o e
Tercer Cine, assim como o mundo já havia sido dividido. O primeiro
cinema seria o cinema dominante, aquele vindo das metrópoles e que
sufoca os países dependentes (modelo hollywoodiano). O segundo cinema
nasce na Argentina como cinema de autor, de expressão, é um
cinema que tem como mérito a tentativa da descolonização.
A partir do momento que começa a ser veiculado em cineclubes para um
público de críticos e intelectuais, esse cinema perde um pouco
o sentido para o grupo. O terceiro cinema procurava veicular seus filmes em
sindicatos, era o cinema-ato - panfleto - que tinha como objetivo levar o
público à revolução.