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Conheci
Claudia von Alemann no
Festival Internacional de Cinema de Figueira da Foz,
Portugal, onde ela estava participando com seu útimo
vídeo "Era uma vez um duende" (título
original: War einst ein wilder wassermann). Trata-se
de um documentário em que a realizadora acompanha
a volta de sua mãe, Ludmilla, de 84 anos, para
a cidade onde viveu no tempo de Hitler. Instigada por
sua neta (Noemi, filha de Claudia), Ludmilla embarca
numa jornada dolorosa pelo passado, explicando como
acreditava na idéia do Socialismo Nacional de
1933 a 1945, e como hoje a rejeita. O vídeo já
foi exibido no Brasil, por ocasião do último
Festival É tudo verdade.
Claudia von Alemann nasceu em 1943, em Seebach,
em Thuringue, ex-RDA. Estudou História da Arte
e Sociologia na Universidade livre de Berlim, além
de cinema na Hochschule für Gestaltung, de Ulm.
Viveu em Paris em 1968-69 e depois entre 1975-1980.
Em 1973 organizou com sua amiga e cineasta Helke Sander
o primeiro "Festival Internacional de Filmes de
Mulheres", em Berlim. Claudia von Alemann é
realizadora de cinema e vídeo, além de
professora na Escola de Dortmund.
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CC
- Vamos
começar do início. Como surgiu o seu interesse
pelo cinema?.
Claudia
Von Alemann - Eu
era extremamente pobre, não tinha dinheiro. Eu
tinha que pagar meus estudos e para isso trabalhar numa
fábrica ou como secretária. Então
eu comecei a trabalhar na bilheteria de um pequeno cinema
e, como lá era quente, esse cinema acabou virando
a minha segunda casa. Lá eu vi Eisenstein e Buñuel
e tudo mais. E fiquei tão entusiasmada! Então
eu comecei a estudar polonês, especialmente para
ir para a Filmacademy of LODZ, mas era tão
difícil aprender polonês que eu acabei
desistindo. E academia de cinema de Berlim ainda não
existia. Então eu fui estudar numa escola muito
famosa para desenho industrial que era considerada como
uma sucessora da Bauhaus (Hochschule für Gestaltung,
Ulm). Era uma escola muito interessante com base numa
fundação privada, uma fundação
anti-fascista chamada Geschwister-Scholl-Stiftung
(Fundação-Irmãs-Scholl). Hans e
Sophie Scholl foram assassinados, executados, guilhotinados,
ainda jovens estudantes, porque eles haviam distribuido
panfletos anti-fascistas na universidade de Munich,
em 1943. Esse é um caso muito famoso de resistência.
A irmã deles, Inge Aicher-Scholl, fundou uma
escola, que era a sucessora da Bauhaus para desenho
industrial, para artes gráficas, fotografia,
comunicação visual e cinema também.
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CC - Quando
foi fundada a escola ?
Claudia
Von Alemann - O
departamento de cinema foi fundado por Alexander Kluge e Edgar
Reitz - os dois diretores, que são muito famosos hoje
em dia - em 1961, eu acho. E eu comecei a estudar lá
em 1964. E esta escola foi fundada em 1955, era muito conhecida
pelo desenho industrial como eu disse. Nós tivemos
uma educação muito interessante, seguindo os
princípios da Bauhaus, onde todos tinham que estudar
as mesmas coisa por um ano. Tínhamos que estudar artes
gráficas, fotografia, artes plásticas, fazer
trabalhos em metal e em madeira, etc. Então todos tinham
a mesma educação durante um ano básico
e depois se dividiam. E era muito interessante, muito rico,
como uma escola, não como uma universidade. Tínhamos
que estudar de segunda-feira de manhã até sexta-feira
a noite. Não éramos permitidos a estudar como
numa universidade, nós tínhamos que trabalhar
duro. Mas foi uma formação muito boa e nós
éramos apenas vinte estudantes de cinema. E dentre
esses vinte estudantes, havia cinco mulheres o que era um
número alto. Porque nessa época mulheres não
eram realizadoras de cinema. Havia apenas Agnes Varda, Maizetterling
(atriz sueca em filmes de Ingmar Bergman, depois realizadora),
e nos Estados Unidos, Dorothy Arzner... Quase não havia
realizadoras.
CC
- Quando
você fez o seu primeiro filme ?
Claudia
Von Alemann - Nessa
escola de artes. Era chamado " Simples " e era,
claro, muito complicado, o oposto do nome. Foi em 35mm, preto
e branco. E não era sobre pessoas vivas, mas sobre
objetos. E esses objetos tinham vida própria e escapavam
das pessoas que se aproximavam deles e nunca faziam o que
você queria. Se você abrisse uma garrafa de água,
a água pulava na sua cara. Se você tentasse pegar
um copo, o copo quebrava. Era uma história muito estranha,
nada realista, não-realista. O filme era construído
como uma sonata, porque eu tinha muita influência da
construção da música. Eu tive uma educação
musical também quando criança. E a segunda parte
é a descrição de como subir um degrau
de uma escada, para mímicos. Mímicos têm
que saber exatamente que movimentos fazer para fingir que
estão subindo uma escada. A terceira parte é
o oposto da primeira. Tudo agora está bem mas ao mesmo
tempo terrível. Durante três minutos, numa única
sequência, um big close-up de alguns dedos tentando
colocar uma linha no buraco da agulha. E eu gosto muito desse
filme, ele foi mostrado em vários festivais. E o meu
filme de graduação também foi em 35mm.
Ele foi mostrado em vários festivais e também
em conferências de psicanálise (risos). Era um
filme muito estranho sobre fragmentos de contos dos irmãos
Grim. Você pode ver nesse meu último filme quando
minha mãe canta uma música a forte influência
da mitologia alemã dos contos dos Grim. Eles recolheram
contos há cento e cinquenta anos atrás. Eu dirigi
pessoas da escola que não eram atores, eram estudantes.
Dirigimos fragmentos desses contos-de-fada e eu dirigi também
algumas crianças representando. E então eu misturei
esses fragemntos de contos com as peças das crianças.
É muito estranho, surrealista.

CC
- Quantos
filmes você fez ?
Claudia
Von Alemann
- Eu fiz, acho que uns trinta filmes, não sei mais.
E eu fiz muitos documentários e muitos filmes que tratavam
não do pensamento surrealista mas do sentido da própria
palavra. Fiz filmes sobre trabalho fabril, especialmente trabalho
fabril de mulheres, com seus acidentes. E também sobre
outros assuntos políticos. Fiz muito filmes que foram
chamados na época de documentários políticos.
Mas por outro lado, como eu tenho dois lados na minha alma,
eu fiz longas-metragem de ficção, dos quais
eu gosto tanto quanto dos documentários, e que não
são muito lineares, têm uma estrutura fragmentária,
narrativas não clássicas. Um filme que foi muito
bem recebido era totalmente surrealista, fragmentário.
Um cenário foi construído para ese filme, num
estúdio de TV. Tinha uma coreografia, três atrizes
e um ator se moviam silenciosamente. Houve uma montagem de
música e som muito bem feita. E esses quatro atores
se moviam nesse espaço. Eu gosto de dirigir atores
de uma maneira coreográfica, artificial. Não
gosto muito de filmes realistas, em estilos realistas. Eu
gosto mais de um estilo artificial.
CC
- Vamos
falar desse seu novo filme. Quais foram as suas motivações
para realizá-lo?
Claudia
Von Alemann
- É uma longa história também. Eu sempre
tentei ficar longe do meu país. Eu não gostava
do passado do meu país, eu não gostava do passado
alemão nem da história das gerações
passadas. Então eu morei durante alguns meses em Milão,
morei muitos anos na França, em Paris. Eu fiz filmes
em francês. Eu tive uma retrospectiva no Institut Français,
em Cologne. Eu me identificava totalmente com outros povos,
mas não com o alemão. Eu não tinha uma
identificação alemã para mim. Eu rejeitava
muito o passado alemão.
CC
- Você
nasceu durante a guerra?
Claudia
Von Alemann
- Eu nasci no final da guerra, numa pequena cidade, na Alemanha
Oriental (Seebach, Thuringue). Meus pais se mudaram da Alemanha
Oriental para a Ocidental. E eu só voltei lá
depois da reunificação, em 1990. Eu voltei para
essa cidade e redescobri a história dessa cidade. E
então eu fiz quatro filmes sobre a história
dessa cidade e a história do pós-guerra e da
pós-reunificação, 45 anos depois, de
maio de 1945 a 1989 ou 1990. Antes eu sempre filmei sobre
outros assuntos, temas históricos, como uma ficção
sobre a primeira mulher alemã que fundou um movimento
feminista em 1830, 1840. E eu editei um livro sobre o socialismo
feminino utópico francês em 1830 (Le siècle
prochain nous appartiendra. Les idées utopiques des
premières socialistes françaises - 1830-1850).
E eu trabalhei muito nesse livro e na história do feminismo
na França e em outros países, que começou
em 1830, 40. E trabalhei temas históricos em países
como Argélia, Namíbia. Fiz um filme sobre mulheres
no Vietnã, fiz filmes na França. Então
eu não fiz filmes alemães. Eu fiz filmes na
Alemanha. Eu não sei o que significa "filmes alemães".
Eu quero dizer que eu não fiz filmes sobre temas alemães
e nem muitos filmes na Alemanha. E então de alguma
forma eu me voltei para a minha própria história,
quando criança, entre estas duas Alemanhas, a oriental
e a ocidental. E eu redescobri esse país oriental,
com muitas pessoas que fizeram filmes sobre as suas memórias,
de suas tentativas de escapar do leste para o oeste, e suas
memórias de infância e do período pós-guerra,
as dificuldades e contradições. Foi muito forte
para mim encontrar minha identidade, sem nacionalismo, claro.
Eu não posso ser uma nacionalista, é impossível
para mim. Falo de encontrar meus próprios traumas,
minhas experiências traumáticas.
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CC
- Por
que contar essa história através da sua mãe
e da sua filha?
Claudia
Von Alemann
- Eu te disse que eu fiz outros três filmes nessa cidade
e eu estava muito fascinada com essa cidade e com esse pequeno
microcosmo da história alemã recente. Eu conversei
muito com pessoas idosas dessa cidade. São filmes muito
simples, não é a grande história, mas
pequenas histórias contadas por pessoas normais do
dia-a-dia. Isso me interesava mais do que figuras heróicas
ou algo assim. Então eu conversava com essas pessoas
e eu me sentia muito bem nessa cidade e nessa casa onde eu
nasci e que pertenceu à minha mãe e que agora
é uma casa para crianças abandonadas. Então
eu tive a idéia de trazer minha mãe de volta,
ela não queria voltar de jeito nenhum. Ela tinha deixado
a cidade em janeiro de 1946, quando sua mãe foi expropriada
e foi para uma outra cidade no leste. E ela sempre voltava
para essa outra cidade, mas não para a primeira. Porque
ela tinha vivido ali de 1933 a 1946 e se sentia muito culpada,
ela não queria se ver confrontada com esse período.
Ela pensava que os habitantes da cidade estariam chateados
com ela, o que não era absolutamente verdade. Claro
que eles o receberam bem, porque eles a conheceram como uma
mulher jovem e eles adoravam minha avó, que era protestante,
muito cristã e cuidava das pessoas e sempre estava
lá quando nascia uma criança e dava ajuda médica.
Ela era um misto de médico com padre, uma pessoa com
quem as pessoas falavam sobre suas almas. Eu achava que as
pessoas a odiavam e pensavam que ela era uma exploradora.
Mas as pessoas me falaram muito bem dela. Então eu
disse para a minha mãe que as pessoas gostariam de
vê-la e finalmente ela foi até lá comigo.
Eu praticamente não tinha dinheiro para fazer o filme
e eu não queria contar as histórias em casa
com o meu pai, no seu pequeno apartamento, no oeste. Eu queria
que ela estivesse nessa cidade. E ela não conseguia
andar muito bem, então tínhamos que filmar um
pouquinho a cada dia. E nós tivemos que interromper
porque ela não estava bem. E só dois anos depois
nós pudemos continuar filmando. O filme foi feito com
dois anos de intervalo. E isso não deveria ser notado
no filme.
CC - Eu
não notei.
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Claudia
Von Alemann
- É bom que você não tenha notado,
porque eu não queria explicar. Com a primeira
filmagem eu não fiquei satisfeita, alguma coisa
estava faltando. Ela não dizia o que era para
ser dito. Eu não queria que ela dissesse o que
eu queria que ela dissesse, claro, não é
isso. Eu reflito muito sobre o processo de filmagem
de um documentário, penso muito sobre como manipulamos
as pessoas sem saber, e como a câmera influencia
as pessoas, e todas essas questões sempre discutidas.
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Eu penso muito nisso e não tenho essa atitude
de manipular as pessoas. Mas você nunca sabe o
que o seu inconsciente faz. Enfim, eu não estava
satisfeita. Então, da segunda vez eu perguntei
a minha filha se ela viria e se ela acompanharia a avó.
Porque minha mãe não conseguia caminhar
sozinha, era preciso alguém ajudando. E eu não
queria estar nas imagens, eu não queria ser sempre
vista, não sei, não sei explicar. Eu queria
uma outra pessoa, bem próxima a ela, que lhe
fizesse as perguntas
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CC
- Você
preparou as perguntas que sua filha fez a ela?
Claudia
Von Alemann
- Não, nós não preparamos nada. Minha
filha não teria aceitado que eu lhe dissesse as perguntas
que ela deveria fazer, de jeito nenhum. E ela não queria
fazer pergunta nenhuma. Então eu disse "tudo bem,
não faça nenhuma pergunta". E no final
das contas, quando eu a liberei desse peso de fazer perguntas
e disse apenas para andar ao lado da avó e olhar para
ela e ouvi-la, sem perguntar nada, então finalmente
ela se liberou e fez perguntas. Isso é muito discutido,
quando as pessoas vêem o filme, sempre me perguntam
se eu manipulei minha filha e a convenci a fazer isso contra
a sua vontade. Claro que eu não poderia ter cometido
tal violência contra a minha filha. Nós tivemos
muitas discussões sobre isso e ela me dizia que não
perguntaria nada que eu pedisse a ela para perguntar.
C/C
- Então a princípio
você queria que ela fizesse determinadas perguntas?
Claudia
von Alemann - Não, eu sabia que ela reagiria. E
minha mãe nunca fala publicamente. Ela gosta de falar
comigo e com a minha filha. E ela se sentiu muito a vontade
em frente à camera, que foi feita por um amigo. E o
som foi feito por apenas duas pessoas, o assistente e o camera-man.
E ela os conhecia e gostava deles. Então ela estava
totalmente livre. Mas ela nunca tinha falado em público.
Ela sempre viveu como dona-de-casa e mãe, nunca viajou,
nunca teve nenhuma vida pública, nunca falou em público.
Mas dessa vez ela falou muito livre e abertamente.
C/C
- No final do filme você diz
que para ela foi uma espécie de libertação
ter falado sobre essas coisas. Você acha que na Alemanha,
falar sobre o nazismo é um tipo de libertação
da qual as pessoas ainda precisam? Ainda é um assunto
que deixa as pessoas desconfortáveis?
Claudia
von Alemann - É. Eu não consigo acreditar
que depois de mais de cinquenta anos, isso seja ainda um assunto
tão difícil, do qual se fala tão pouco.
Com um aluno meu que fez assistência de som e com o
editor que era um amigo, nós discutimos muito. E todo
mundo quando discute esse filme ou o assunto, todo mundo,
mesmo a nova geração, todo mundo fica muito
agressivo, contraditório. Provoca muito as pessoas,
mesmo eu não querendo provocar, eu provoco sem querer.
Eu não teria feito o filme se o meu pai e minha mãe
ainda dissessem que de alguma forma foi bom o que Hitler fez.
Muitas pessoas idosas dizem que o que Hitler fez não
foi bom, mas que ele deu emprego para todo mundo e esse tipo
de coisa. Eu não suporto isso, eu não queria
ouvir isso. Eu não queria fazer filmes sobre pessoas
que ainda justificam Hitler. Eu não sou jornalista,
eu não quero fazer esse tipo de filme, ver isso na
televisão, tudo bem. Mas eu só fiz esse filme
porque minha mãe disse seriamente "eu não
sabia de nada, mas eu devia e podia ter tentado saber mais
e essa é a minha falha, a minha culpa". Essa última
frase é o que importa. "Eu não sabia nada",
todo mundo diz "eu não sabia de nada"...
C/C
- No filme a sua mãe diz que
não acredita que as pessoas pudessem não saber
de nada.
Claudia
von Alemann - Ela diz que não acredita nas pessoas
que dizem isso. Se alguém tentasse saber alguma coisa,
teria conseguido saber, é o que ela diz. Essa é
a frase importante e foi por ela que eu fiz esse filme. E
ela ainda provoca as pessoas. Muitas pessoas me escreveram
cartas quando o documentário passou na televisão.
Foi uma reação enorme, apesar de ter pasado
às 11h da noite. Você pode maginar? Houve uma
reação tremenda. Pessoas completamente desconhecidas
me escreveram cartas. Muitas cartas boas, mas também
algumas que diziam "nós não sabíamos
de nada, vocês não podem nos culpar, como sua
mãe pode dizer isso?". Reações inacreditáveis.
Minha mãe também fez esse filme por uma razão
pessoal... (hesitação). Meu pai não pode
saber disso, vai ser publicado onde? No Brasil (risos)?
C/C
- Vai ser publicado em português,
se o seu pai não lê português, tudo bem.
Claudia
von Alemann - Eu não tenho medo da reação
do meu pai, não é isso (risos). Mas eu queria
que a minha mãe falasse sozinha, sem ser interrompida
pelo meu pai o tempo todo. Ele teria dito o tempo todo "não,
não foi assim, foi diferente".
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