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A
8º mostra internacional do filme etnográfico
aconteceu no Rio de Janeiro de 22 a 28 de novembro no
Museu do Folclore e no Espaço Museu da República.
Aproveitamos a oportunidade para entrevistar dois documentaristas
que participaram da mostra : o carioca Gustavo
Caldas, que mostrou o vídeo Febre de
Funk, e o americando John
Veit, que apresentou o Field Notes : Newark,
NJ.
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John
Veit
CC
- Como
você começou a trabalhar com documentários?
John
Veit - Eu
escrevia para a revista High Times. Então eu
estive aqui na ECO 92 e conheci um cara que tem uma
produtora de documentários de direitos humanos.
Eu comecei a trabalhar com ele em Nova York quando eu
voltei. Eu trabalhei com ele de graça por um
ano e depois ele começou a me pagar alguma coisa,
mas não muito. Em Nova York eu fazia qualquer
negócio, câmera, som.
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CC - Fale
um pouco sobre o Field Notes.
John
- É
sobre a cidade de Newark. Lá não tem economia,
não tem dinheiro. Está abandonado. As pessoas
não tem o que fazer a não ser usar drogas e
vender drogas. O filme é sobre isso. Como se usam as
agulhas. As pessoas contraem a AIDS usando as agulhas. Eles
tomam medicamentos para a dor, para a AIDS, e tomam o medicamento
junto com a heroína. A lei não permite comprar
agulhas em New Jersey, é ilegal. Então eles
usam a mesma agulha por três semanas, um mês.
É uma coisa estúpida.
CC
- Há
um mercado ou um espaço de exibição para
documentários nos EUA?
John
- Esse
meu documentário não é para o público,
é para etnógrafos. Eu não fiz para a
televisão nem para festivais. Eu mandei para alguns
festivais internacionais apenas. Por que as pessoas não
querem ver a si mesmas na América vendo o quanto de
heroína elas consomem. É para as pessoas aprenderem
e saberem o que fazer. Mas o mercado ? Bem, se você
é um babaca, você pode fazer muito dinheiro.
Você entende o que eu tô dizendo ? Você
vende suas fitas, você pode ter uma merda de fita e
alguém vai mostrar na TV e vai pagar por isso. Depende
com quem você fala e quem você conhece. Mas os
americanos não se importam com documentários,
na verdade. Há um pequeno mercado para isso, pequenos
festivais. Em Nova York, as únicas pessoas que vão
assistir documentários são as pessoas que fazem
documentários. É como um formato morto, velho.
Uma pessoa fica falando, blá blá blá,
um problema, é chato de ver.

CC
- Você
não gosta de documentários?
John
- Não, não mesmo. Normalmente é terrível.
As pessoas pensam que porque é um documentário,
ele não precisa ser visualmente bom. Há muito
filmes nesse festival em que eu não consigo entender
nenhuma fala mas eu sei o que está se passando porque
eu entendo as imagens. Então, mesmo se é um
documentário tem que ser visualmente bom o tempo inteiro.
Se for um rosto e um outro rosto e um outro rosto, então
deveria ser um livro e não um vídeo. Algumas
vezes há alguns bons documentários. Mas é
raro que alguma coisa realmente aconteça num documentário.
Ás vezes assisto a meus filmes e vejo que têm
o mesmo tipo de problema, é terrível.
Gustavo
Caldas
CC
- Como
começou o seu envolvimento com documentários?
Gustavo
Caldas
- Eu comecei como fotógrafo. Depois um amigo me chamou
para dirigir um clip, eu comecei a dirigir clips, tenho trinta
clips já dirigidos E como cansa fazer só uma
coisa... Eu tenho quinhentos projetos de documentário.
Eu comecei a filmar um que eu não acabei ainda. Então
esse é o meu primeiro.
CC
- Por
que o funk?
Gustavo
- O funk foi a trilha sonora da virada do milênio. Do
ano 2000 para 2001, febre total de funk, até o nome
do documentário é Febre de Funk. Conversando
com o Pedro Só, que é o jornalista que fez as
entrevistas comigo, a gente teve a idéia de fazer um
documentário sobre o funk. Não vamos criar nenhum
roteiro específico, vamos ver para que lado leva, vamos
conversar com as pessoas, vamos procurar os protagonistas.
Conseguimos um furo, que é o Duda da Chatuba, todo
mundo conhecia a música e ninguém conhecia o
cara. Por muita sorte, o vigia da produtora onde eu dirigia
um programa de televisão, morava na Chatuba, conhecia
o cara. Assim conseguimos achá-lo. Ele e a Tati Quebra
Barraco viraram os heróis do documentário.
CC - Qual
a sua opinião sobre o funk antes e depois do documentário?
A partir de que ponto de vista você quis retaratar o fenômeno?
Você procurou ter um olhar neutro?
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Gustavo
- Neutro. Eu nunca quis ser a favor ou contra. Aúnica
coisa que eu sabia era que eu não queria emitir
opinião nenhuma. Eu queria mostrar, até
porque eu queria conhecer. A minha visão do funk
era aquela que todo
mundo da classe média zona sul tem,
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mais ou menos preconceituosa por formação.
Eu queria mostrar para as pessoas o que é o funk.
Eu conheci muito do funk depois que eu fiz o documentário,
acho que a idéia é que as pessoas conheçam
o funk.
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CC
- Na
hora da montagem você acabou denunciando o preconceito
da classe média, porque você botava umas frases
preconceituosas extraídas do Jornal do Brasil, que
é um dos jornais mais lidos pela classe média,
e logo em seguida você colocava as pessoas do funk falando
o contrário do que o jornal dizia, " no baile
funk não tem porrada assim, não tem sexo dessa
maneira. " Então de alguma maneira parece que
você tomou partido sim.
Gustavo
- Eu tomei partido... É, tudo bem (risos). Eu tomei
o partido do funk, né ? Mas eu tomei o partido do funk
contra as pessoas que têm uma visão errada. Um
cara que nunca foi num baile, que nunca freqüentou, que
não conhece ninguém, vem falar que funk é
só porrada. O funk tem porrada. Tinha baile de corredor?
Tinha, ainda tem um ou dois, mas é menos de 10% dos
bailes. Entre 30 e 50 bailes no fim de semana, tem dois bailes
de corredor. E o baile funk mesmo, se você for numa
boate da Barra - eu vou falar isso aqui, os caras vão
me matar - se você for numa boate da Barra hoje, você
vai encontrar muito mais violência, dos caras chamados
pit-boys, que estão agarrando as meninas, batendo,
socando, agarrando à força, do que no baile
funk. O baile funk é muito tranquilo. Tem baile violento
como tem boate violenta, você tem que ir no baile certo.
De um modo geral, o baile não é violento, nem
um pouco. Eu tomei partido por isso. O Jornal do Brasil foi
muito leviano em um monte de coisa.

CC
- Algumas vezes você dizia
quem assinava a matéria, outras vezes você indicava
apenas Jornal do Brasil. Por quê?
Gustavo
- É. Algumas frases vinham com assinatura outras não.
Então vamos botar só também... Alba Zaluar
falar aquilo : " o baile funk não tem raiz. "
Ela falava que não é como o samba, que não
tem raiz e que não vai pra frente. Que isso ? Essa
nunca foi lá fazer entrevista. Eu estou falando isso
de um ícone da antropologia nacional. Mas é
isso, ela nunca foi. O Affonso Romano de Sant'ana, aquela
matéria dele me deixou indignado, é um absurdo,
uma violência gratuita contra o funk, contra a Tati.
A Tati é uma das pesoas mais autênticas que eu
já vi ma minha vida.
CC
- O seu filme teve uma das maiores
audiências aqui da Mostra do Filme Etnográfico.
Quando você escolheu o tema, você pensou na popularidade
do funk, que te daria um bom retorno, ou o tema te instigava
realmente?
Gustavo
- Eu nunca imaginei que fosse rolar esse interesse. Eu escolhi
o funk porque eu me amarro em tema polêmico. Falou em
polêmica eu gosto. Eu quero ver qual é, se a
polêmica tem razão de ser. Eu descobri que a
polêmica sobre o funk era ridícula, exagerada.
Tem gente boa e gente ruim em qualquer lugar, no congresso,
na faculdade, no funk...
CC
- Qual o seu próximo projeto?
Gustavo
- Eu tenho um sobre mulheres que moram sozinhas, baseado
na tese de mestrado de uma psicóloga. Ela escreveu
um livro. Acaba sendo sobre preconceito também, o preconceito
dos caras com as meninas que moram sozinhas. Tenho um outro
que no momento que é o meu queridinho, o nome é
Território, sobre as facções criminosas
no Rio de Janeiro. Eu estou em fase de pesquisa.
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