Para a estréia dessa página de entrevistas, escolhemos também uma estreante, a paulista Lina Chamie. Seu primeiro longa, Tônica Dominante, abriu, com grande sucesso, a Première Brasil (hors concurs) do Festival do Rio BR 2000. A cineasta nos recebeu no Plaza Copacabana, quando esteve no Rio para participar da mostra, e nos falou de forma apaixonante de seu filme, de cinema e de arte. A própria Lina começou a entrevista, levantando a questão: por que Tônica Dominante?


LINA CHAMIE - Porque mesmo o termo Tônica Dominante? Ele tem um duplo sentido, porque tônica e dominante são os dois principais acordes da música ocidental que definem as tonalidades. Os principais elementos da harmonia ocidental são duas palavras, dois nomes bem comuns pra mim: "Tônica", "Dominante", dois acordes. E Tônica Dominante tem também o seu duplo sentido de ser a tônica dominante de um certo estado geral, que é o que o filme trabalha muito. O filme narra três dias na vida do protagonista, em situações diferentes, como se fosse os três movimentos de uma sonata, daí ser um filme sobre música com estrutura musical. Cada dia tem um tratamento de cor diferente, e esse tratamento de cor é parte importantíssima do sentimento do filme, do entendimento do filme, da tônica dominante do filme. É um filme de sensações, que aposta muito na poesia, no ritmo, no movimento de câmera, na imagem. Por exemplo, no primeiro dia o protagonista está só, numa situação de fragilidade, a cor é o azul escuro, a luz é melancólica, ele está só ali, em um momento de introspecção, de solidão. No segundo momento, ele passa por uma situação de desespero, as coisas estão dando erradas. Tem algo meio surreal - de novo a fotografia -, as lentes vão ficando deformadas, com uso da grande angular, a luz cada vez mais vermelha. Nesse momento a tônica dominante de cor é o vermelho. No terceiro momento, o protagonista, que passou por essas coisas, caminha em direção à luz. Ele aprende com aquelas coisas que ele vive. De alguma forma ele olha pra trás e cresce com isso, é o final do filme. Ele chega nessa plenitude através da música. E o filme vai ficando dourado. O trabalho de fotografia foi muito elaborado neste sentido. Ele terminou com uma cor que é o dourado, é mais clara, é uma situação mais brilhante, puxando para o amarelo. A própria direção de arte acompanha isso também, ele está com uma camiseta amarela, o palco está iluminado, dourado, tem uma coisa de brilho nos olhos. O filme tem aquela evolução na história que é contada pela fotografia, é uma evolução da fotografia também, evolução de tratamento, de pensamento. O filme começa no escuro, denso, e termina iluminado como se fosse a luz no fim do túnel. Pra mim tem um plano emblemático nesse filme. Aquela hora que ele caminha sozinho na rua em direção à luz, a luz está lá no fundo… É um plano enorme. Isso é emblemático do filme, o filme tem essa caminhada, essa idéia de que através da criação, da expressão artística, a gente consiga se elevar e encontrar a luz, e encontrar seu próprio caminho. O filme tem esse pensamento muito claro, ele fala disso, e fala disso não só narrando isso, mas procurando fazer isso. E aí está a fotografia, que procura trabalhar estados emocionais do protagonista pela cor. Eu estou dando a explicação do nosso pensamento, mas isso acontece no filme de uma maneira muito natural, é uma sensação que as pessoas vão ter, e elas podem não entender e dizer: puxa vida, o filme começou azul e terminou dourado. As pessoas vão ter um filme que, de certa forma, as transportou numa viagem que começa em termos fotográficos.

CC - Esse trabalho de fotografia foi elaborado em conjunto, por você e a Katia Coelho?

LINA CHAMIE - É, isso já era ponto de partida do Tônica, a gente trabalhou junto com a direção de arte também. Inclusive tem uma outra coisa aí, mais técnica, é que existe um estudo da sinestesia, um estudo da música coma cor. Certas tonalidades, certos timbres musicais evocam em certas pessoas que tem uma sensibilidade mais apurada certas cores. Então um solo de cello supostamente evocaria um azul. Isso é bem mais profundamente técnico, mas, enfim, são coisas que a gente estudou na elaboração do filme. Por exemplo, uma hora a gente está com Schubert - aquele solo de piano quando o protagonista está ouvindo na sala ao lado -, ele evoca um pouco esse tom azul escuro. A música é um outro elemento principal de condução da historia, porque o filme tem pouquíssimos diálogos, não tem diálogos relevantes: "puxa que bom que você veio", "claro que eu vinha". Não há nada de diálogos. Há o personagem do maestro que fala com a orquestra, ele é um pouco o verbo do filme, ele narra, rege o filme. Ele é quase que didático, porque ele conta a fábula, e a fábula se transforma no filme no final. "Pintores pintam na tela e compositores pintam no silêncio."
O filme pinta na tela. O Schubert final é uma pintura na tela, e assim se encontra a luz, a criação acontece. Não existe praticamente diálogos no filme, então qual é a expressão sonora principal do filme? É a música! A música é o principal diálogo, a música e, é claro, a fotografia. A montagem também é um elemento fundamental. É uma montagem muito particular, do Paulo Sacramento, que é um excelente montador - que montou Cronicamente Inviável, do Sérgio Bianchi. É um montador dessa nova geração, uma pessoa de extrema sensibilidade. Entre eu, a Kátia e o Paulo está a estrutura principal do filme. O cinema tem similaridade com a música, porque, assim como a música, ele transcorre no tempo. Ele tem a questão do ritmo muito inerente a sua linguagem. O ritmo é principal no cinema e o ritmo é a montagem. O cinema é maravilhoso por isso, ele também na sua feitura acontece no tempo. A câmera roda e as coisas acontecem e é preciso haver uma certa liberdade para que as coisas aconteçam. No Tônica, as pessoas ficam paradas numa sala durante horas. É um filme extremamente movimentado de câmera, mas ninguém se mexe, o que se mexe é por dentro. A câmera fica muito tempo no rosto de alguém. O Tônica tem um tempo um pouco mágico, tem tempos lentos, planos longos, tem muita personalidade, um tempo muito próprio, difícil comparar ele com qualquer outro filme de narrativas mais convencionais.

CC - Naquela cena que ele caminhava na rua, eu me perguntava, será que ela vai deixar ele caminhar até o final?

LINA CHAMIE - É, ele vai caminhar até a luz. Exatamente, legal você ter falado isso. Porque o Lírio Ferreira (o diretor de O Baile Perfumado) assistiu o filme - e aí é bem visão de diretor - e depois ele comentou com o Nando (Fernando Alves Pinto). E ele falava "e aquele plano da caminhada, eu comecei a ver aquilo, e eu rezava, não corta!, não corta!, ela não vai cortar!", e quando acabou ele falou "graças a Deus não cortou, ufa" (risos). É essa coisa, são os tempos dos planos. E o Tônica não é um filme longo, ele é vitaminado. Se a gente for pensar, é um paradoxo, ele tem esses planos em que é o tempo que mostra, a expressão é por dentro, mas ao mesmo tempo ele é um filme que não pára, está sempre com um sentido. É como a leitura de um poema. O poema é econômico, ele tem poucas palavras, mas o sentido daquilo tem um tempo que ecoa. O Cacá Diegues citou uma frase famosa do Abel Gance: "o cinema é a música da luz", é a definição dele de cinema. E o Cacá brincou, "ao invés da música da luz, vocês conseguiram a luz da música". Isso é muito bacana.

CC - Como foi a concepção do roteiro?

LINA CHAMIE - Foi um roteiro muito fechado, muito bem estruturado, era quase como uma partitura. A idéia de três dias, três momentos, a evolução da cor. Uma partitura indica tudo, está tudo ali certinho e o Tônica tem uma partitura. O que é fundamental é que ele seja vivo, você não pode morrer na estrutura, senão você faz um cinema teórico e sem emoção. O Tônica parte de uma estrutura muito pensada e aí ele se permite existir no tempo. Ele é feito de maneira muito respeitosa ao tempo da emoção. Tanto é que os planos são ditados pelo tempo do ator, leve o tempo que levar. Tem um movimento de câmera super elaborado e definido, mas o tempo será o tempo da sensibilidade. A primeira situação toda do Nando - ele está dentro de uma sala sozinho ouvindo aquela música - tem o tempo de ouvir que é o tempo da gente de ouvir, de se perder em alguma coisa, a gente também perde tempo quando está envolvido com alguma coisa. Tem aquela música do Caetano, "mas como é que a gente voa quando começa a pensar".

CC - A filmagem durou quanto tempo?

LINA CHAMIE - Foram três semanas. A gente fez uma viagem a Cabo Frio e Arraial do Cabo para filmar as dunas. A gente tinha pensado em fazer maquete, mas o impacto da duna é único, a duna é viva, a coisa do vento, ela tem uma força própria. A gente filmou as dunas em um dia.

CC - Como está sendo a repercussão do Tônica?

LINA CHAMIE - Ele vai ser lançado ano que vem em Março pela Rio Filme, o filme é da Super Filmes. Ele teve muito sucesso no Festival de Montreal, ele abriu a mostra aqui, Hors Concurs, ele segue para festivais fora. Acho que ele vai ter um olhar interessante fora e já provou isso. Em Montreal, o François Girard foi ver e ficou encantado. Ele foi considerado o filme mais inventivo da América Latina.

CC - É um filme que não tem uma temática brasileira, ele é universal, poderia ter se passado em qualquer lugar.

LINA CHAMIE - Poderia. Existe não só esse cinema que é temático, como existe a expectativa de um cinema temático, como se o cinema brasileiro ou o cinema da América Latina tivesse que ter certas preocupações sempre. E é uma visão um tanto limitadora. Porque o cinema em si é uma arte que permite uma liberdade absurda. Acho importante a gente ter um cinema variado. É importante a gente ter uma definição da nossa cultura, mas o cinema define a cultura pelo cinema, não necessariamente por uma expectativa de um tipo de filme.

CC - Você acha que o Tônica pode ser um marco no cinema brasileiro nesse sentido?

LINA CHAMIE - Eu espero que ele seja um contra-ponto, que ele abra um espaço para esse tipo de filme. A gente não pode ficar tão preso a essa expectativa de um filme brasileiro em sua brasilidade. O cinema rico é aquele que é multifacetado, que consegue explorar a linguagem de forma rica e não estigmatizada. Acho que o principal em qualquer expressão artística, em qualquer discurso, é acreditar, é aí que vai estar a coerência do seu discurso, senão a gente faz por fazer e aí é complicado. As linguagens são coerentes de acordo com a sua proposta.

CC - E seus outros trabalhos?

LINA CHAMIE - Esse é meu primeiro longa, eu tinha feito um curta, o "Eu sei que você sabe", que foi muito premiado. É um curta de 1995, uma homenagem ao poeta Manuel Bandeira, um curta breve, poético também, com uma melancolia brincalhona, um pouco no espírito do Manuel Bandeira. Antes disso eu tinha feito vários vídeos. E minha formação acadêmica é musical, eu estudei nos Estados Unidos. Eu morei em Nova York por treze anos, fiz universidade e mestrado lá, pós-graduação em filosofia e graduação em música. E eu trabalhava paralelamente no departamento de cinema, porque era uma atividade que eu adorava, eu sempre tive essas duas paixões paralelas. O Tônica foi a união dessas duas paixões, música e cinema. Quando eu voltei para o Brasil em 1995, eu naturalmente fui passando para o cinema, foi uma decisão que eu fiz, comecei a filmar, mas é evidente que a música está bem presente na linguagem.

CC - Você tem uma formação em música e uma influência da poesia - já que seu pai é poeta - mas e a filosofia, tem um papel também no seu trabalho?

LINA CHAMIE - Eu acho que sim, tudo na nossa vida vai tendo algum papel, mesmo que inconsciente. A filosofia certamente está presente, talvez na maneira de pensar, de abordar. Esse não é um filme sobre filosofia, não tem a pretensão de ser um tratado filosófico sobre cinema ou música, mas ele certamente tem um pensamento que vem muito da filosofia. Outro dia me perguntaram que cineasta era uma influência pra mim. São muitos: Visconti, Kubrick, Fellini, Jacques Tati, que especificamente trabalha muito a linguagem do som. São todos fundamentais. Acho que a gente vai somando tudo na cabeça, aquilo tudo vai ficando lá e aí num momento ou outro vai entrar uma impressão ou um aprendizado que vem de alguma dessas referências. Mas provavelmente eu tenho muito da filosofia, algumas pessoas devem falar "nossa, essa pessoa filosofa muito, é muito papo cabeça" (risos)...

CC - Tem algum filósofo que é uma referência para você?

LINA CHAMIE - Eu gosto muito do Descartes, acho interessante as meditações, também Espinoza, Kant. São pensamentos bem definidos, bem apaixonados. E tem Platão, como ponto de partida, as idéias, os conceitos. "A beleza é um conceito", é uma das primeiras frases do filme, tem um pensamento um pouco platônico. Aquilo na verdade é um poema de amor do Manuel Bandeira, não é um poema conceitual, é filosófico também, mas é um poema de amor. Mas talvez vocês queiram sair do papo cabeça e saber aspectos mais técnicos (risos)...

CC - Se você quiser contar isso pra gente...

LINA CHAMIE - É, tem um aspecto interessante, que foi o primeiro filme no Brasil montado em A e B, e só Deus sabe o trabalho que deu, o tempo que a gente ficou dentro do laboratório. Ele é montado como se fosse em 16mm. Ele tem duas bandas de negativo. Por que isso? Porque o Tônica tem mais de 50 efeitos, entre fusões e fades. Ele tem uma linguagem macia, transcorre com naturalidade, mas ele tem muito efeito de fusão. Tem poucas trucagens, três apenas, tem as notinhas musicais que começam a voar... O A e B permite que eu faça fusão e fade sem fazer trucagem. Por que com a trucagem você perde em qualidade e custa uma fortuna. O Tônica foi feito com R$ 500.000, um orçamento baixo. Ele é exemplo de que é possível um filme de orçamento baixo com qualidade de imagem. É possível encontrar maneiras criativas. O Tônica, independente da linguagem, é tecnicamente primoroso.


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