"Eu
tenho ansiedade de discutir, não faço isso por nenhuma definição
discursiva do tipo: eu tenho que fazer isso, sou obrigada."
Lúcia Murat é assim, movida por suas preocupações políticas,
determinada em discuti-las em seus filmes. Nesta entrevista,
a diretora fala de seu último trabalho, Brava gente Brasileira,
das dificuldades do cinema brasileiro e - por que não? - de
política.
CC
- Como surgiu a idéia de fazer o "Brava
Gente Brasileira"?
LÚCIA
MURAT - A idéia do filme surgiu há uns doze anos atrás,
quando um amigo meu que é da região me deu um relatório militar
sobre o forte. O relatório é pequeno, meio chato, do início
do século, e fala em quatro linhas da situação que é o final
do filme, o massacre do forte. E quando eu li, fiquei fascinada,
pensei: isso dá um super filme de ficção, depois, um dia,
eu faço. De lá para cá de vez em quando eu entrava naqueles
concursos de desenvolvimento de projetos. Aí veio a crise
do Collor, paramos de fazer cinema, e eu fiz Doces Poderes,
que é um filme que fala muito das questões discutidas na época.
É um filme pequeno do ponto de vista orçamentário - não que
este não seja, mas em relação aos Doces Poderes é mais
ou menos o dobro - e era uma questão complicada também para
fazer. Em 1997 quando eu cheguei de Berlim - eu estava no
Festival de Berlim com Doces Poderes - um produtor
me perguntou se eu tinha algum projeto, eu tinha alguns, a
gente conversou e ele falou para eu tentar fazer este. Daí,
em Abril de 1997 eu fui pela primeira vez à reserva. E quando
eu comecei a fazer a pesquisa foi surgindo uma série de coisas
fantásticas sobre a região, sobre a tribo, o que deu uma riqueza
muito grande para o filme.
CC
- Como foi o contato com a tribo, a
dificuldade da língua?
LÚCIA
MURAT - A geração nova toda fala português, o problema
da língua não existe, existe a questão cultural, que é extremamente
complicada até hoje. Eu acho que a gente viveu, nesse contato
nos dias de filmagem, muitas das questões que foram discutidas
no filme. Foi muito complicado, e muito incrível também.
CC - E os índios atuaram, né?
LÚCIA
MURAT - É, foram três anos e meio de trabalho, de contato,
de você ganhar a confiança deles, eles ganharem a tua. Eu
ia lá, a gente discutia, eu levava o projeto. Eu até brinco:
a única sociedade que não se incomoda com a lentidão do cinema
nesse sentido são os índios. Um ano depois eu voltava, ainda
não tinha dinheiro... um outro grupo já teria ficado histérico.
Hoje em dia eu tenho uma relação com eles, tenho amigos, inimigos,
pessoas que eu gosto, que não gosto. A partir do momento que
a gente fez o contrato com a Funai, eu, o Murilo Grossi e
o assistente Rodrigo, a gente foi com uma câmera high eight
e filmou mais de treze horas de material, entrevistas com
os antigos (a essa altura o roteiro já estava completamente
definido, já tinha passado pelo laboratório Sundance,
já tinha tido cinco versões). Tinha uns que morriam de vergonha,
iam embora. A idéia era a gente escolher e depois o Murilo
Grossi fazer um laboratório com eles.
CC
- E o elenco branco? Como foi a preparação?
LÚCIA
MURAT - Antes disso a gente já tinha definido a Luciana
(Rigueira). Ela já tinha ficado um tempo na reserva, para
conhecer o comportamento deles. E aí ela participou do laboratório
também. Teve uma cena maravilhosa quando o Hilário (chefe
da tribo) foi até lá. Quando o Hilário chegou, a gente já
estava ensaiando há algum tempo - eu queria que ele desse
umas indicações. E tem aquela cena que o Floriano fala "índio
filho da puta, índio não sei o quê...". O Floriano começou
a ensaiar e o Hilário ficava com aquela cara, sem mexer uma
face do rosto. E o Floriano começou a ficar nervoso, aí ele
parou, "olha por favor, eu não tenho nada a ver com isso,
isso aqui é um ator, eu adoro vocês" (risos). Foi engraçadíssimo,
todo mundo começou a rir, ele parou de repente, quase se ajoelhou
para pedir desculpas. Porque ele não tinha tido contato ainda,
aquele era o primeiro contato. Então tinha desde o Diogo (Infante),
que é um superstar português, até uma senhora que canta e
que não fala uma palavra em português.
CC
- Vocês chegaram a discutir com os kadiwéus
o processo de colonização?
LÚCIA
MURAT - Com os mais antigos não, por causa da dificuldade
da língua. As pessoas mais jovens têm o discurso da liderança
indígena hoje, "nós somos o dono da terra". Sendo que o que
eles têm de particular em relação a outras tribos indígenas
é que eles têm um profundo orgulho do passado guerreiro deles.
Isso para eles no filme era muito legal, o filme estava respeitando
uma coisa que a região hoje não respeita nem conhece. Eles
particularmente têm um orgulho muito grande por terem sido
grandes guerreiros, tanto que é uma das poucas tribos que
mantêm a língua. Eles falam com você em português e falam
com as crianças em kadiwéu. Os outros índios têm vergonha
de falar no idioma - como eles dizem, não é língua, é idioma
-, eles têm vergonha de ir na cidade e falar. Os kadiwéus
não. Os outros chegam na cidade e têm vergonha de ser índio,
mas ao mesmo tempo é índio. Aí não consegue se integrar, volta
para a aldeia, bebe... isso é muito complicado, muito difícil.
CC
- Em termos de investimento, foi mais
fácil realizar esse filme nesse momento de comemoração dos
500 anos de descobrimento do Brasil?
LÚCIA
MURAT - Não sei se teve um peso maior não. Talvez tenha
favorecido um pouco.
CC
- Quais foram as maiores dificuldades?
LÚCIA
MURAT -
A gente fez um filme com muito pouco dinheiro, 400.000 dólares.
E isso é nada para um filme de época. Mesmo que não seja um
filme de ação. Também foi muito complicado trabalhar com os
índios. Foi todo um processo de negociação. Não há coisa
mais capitalista e hierárquica do que uma filmagem. Isso não
tem nada a ver com a realidade deles, obviamente. Às vezes,
a gente ficava desesperado. A gente viveu nas filmagens o
que o filme discute. Às vezes eu tinha vontade de enforcar
um, eles também deviam ter vontade de me enforcar. Os
preconceitos de ambas as partes estavam ali.
CC
- Por que não legendar a fala dos kadiwéus?
LÚCIA
MURAT - Você está lidando com uma tribo que tem conceitos
completamente distintos dos seus. Para você traduzir, você
vai ter que dar uma palavra da nossa cultura, que represente
uma experiência que é nossa e não deles, e a tendência disso
é reduzir, ficar naquela coisa, me Tarzan, you, Jane.
De outro lado, toda a discussão do filme é de que a gente
não consegue chegar lá. A gente montou o filme de uma maneira
tal que a história não é comprometida por isso. O cara mata
o cavalo, ninguém fala nada naquele momento, isso não é CD
Rom. Eu não vou parar para explicar que eles matavam o cavalo
porque achavam que numa vida futura precisariam de um cavalo
para lhes acompanhar. Toda a questão que é mais estranha,
é mais estranha mesmo.
CC
- Eles já viram o filme?
LÚCIA
MURAT - Um deles falou, "eu estou muito ansioso", até
minha filha brincou, porque mês passado eu liguei perguntando
se ele já tinha visto e ele disse que não, então a ansiedade
dele não chega a tanto (risos).
CC
- E a distribuição do filme?
LÚCIA
MURAT - A gente está brigando. Não é um filme comercial.
A gente tenta convencer o distribuidor, "eu juro que as pessoas
estão gostando"... Acho que a repercussão na mostra vai facilitar
a distribuição. Em Toronto, onde ele estreou, também houve
uma resposta muito boa, não só do público mas da crítica também.
Mas é uma briga muito feia, a gente trabalha pacas, é um
mercado muito dominado, a gente dá muito murro em ponta de
faca, a gente trabalha muito e tem um retorno muito pequeno.
A questão que a gente tenta discutir é a de formação de público,
você tem que formar público mesmo que queira ver outras coisas
que não filme americano, outras linguagens.
CC
- O que você pensa do cinema digital?
LÚCIA
MURAT - Está mudando tudo! Não é qualquer coisa que você
pode fazer em digital, kinescopar e depois vira filme. A escolha
do dogma por exemplo: quando fizeram aqueles filmes eram filmes
que cabiam naquele formato, esse é o lado digital. Tem um
lado fantástico, você tem a possibilidade de fazer filmes
muito baratos, dinâmico, mas tem que saber fazer. Tem que
saber que equipamento é esse que você está tratando, tem que
trabalhar tecnicamente e esteticamente. Por outro lado, o
processo de edição mudou inteiramente. A finalização era um
processo muito tranqüilo, muito mecânico, muito dominado pelo
diretor, e agora virou tudo virtual. O primeiro filme que
eu finalizei em digital foi o Brava Gente Brasileira.
E é muito complicado, a tecnologia não é nossa, encareceu
profundamente a finalização, não tem aquela coisa do diretor
dominar. Tudo muda de seis em seis meses. Aí a questão do
gap tecnológico me preocupa. Tem um lado fantástico, a
gente que é pobre pode fazer um cinema mais barato, mas por
outro lado aponta para um gap tecnológico profundo.
Mesmo o processo de kinescopia é um processo que a gente ainda
não tem aqui. E a previsão é de que em quatro, cinco anos
você não tenha mais película. Não a captação, mas a projeção,
que vai ser via satélite. Então não adianta a gente voltar
para trás, o moviola já era.
CC
- O que você acha do rótulo de cineasta
política?
LÚCIA
MURAT - O cineasta político ficou visto como um cineasta
chato. Ainda bem que tem um Ken Loach da vida. Eu fiquei muito
feliz quando saiu uma matéria minha no Jornal do Brasil do
lado da matéria do Ken Loach. É um tempo em que o cinema político
é visto com muita rejeição, isso é um problema para a distribuição.
Mas eu não vou fugir disso. Eu vivi a geração anos sessenta,
vivi a ditadura, eu fui presa, e isso me marca. Eu não vou
negar a minha vida nem as minhas preocupações. A minha preocupação
é política, no sentido mais amplo do termo. O problema
é que a política foi reduzida a uma disputa eleitoreira e
marketeira e as pessoas não querem entender o conceito de
política no seu sentido mais amplo, filosófico, de idéias.
CC
- O seu próximo filme, Quase Dois
Irmãos, também tem uma temática política?
LÚCIA
MURAT - Tem. Você pode me perguntar se eu vou passar
o resto da vida fazendo isso. Sei lá, eu estou ficando velha,
de repente eu me apaixono por um garoto de dezoito anos e
posso fazer um filme sobre isso: uma coroa que se apaixona
e se suicida no final. Mas isso ainda não pintou, né? Então
o Quase dois irmãos é sobre a relação entre classe
média e favela no Rio de Janeiro em três gerações.
CC
- Em que consiste a luta política hoje?
LÚCIA
MURAT - Eu vivi uma geração que foi a geração da utopia.
A minha filha estava lendo sobre os anos sessenta e aí ela
falou "pô, assim até eu". Eu não fui a frente de meu tempo,
eu fui parte de do meu tempo, com muito orgulho. A geração
68 botou para quebrar em muitos sentidos, foi a revolução
sexual, os costumes, o modo de viver e se vestir. E tinha
a utopia de um novo mundo, uma coisa muito mais aberta do
que apenas de esquerda e direita. Mesmo que no Brasil a situação
da ditadura não levasse a uma discussão tão radicalizada como
foi na França, a gente discutia também. Era o momento de introdução
da psicanálise de uma forma massiva, tinha o Reich, tudo isso
era muito presente, não só meramente a questão "abaixo a ditadura".
Esse mundo não existe hoje. Nos anos oitenta houve o boom
da razão cínica, o boom do yuppismo. Individualmente, eu acho
que a desilusão é muito presente. Doces poderes é sobre
isso, a desilusão da minha geração. Hoje o único movimento
social forte que eu vejo é o MST. E é deles. Eu sou cineasta,
classe média, e estou aqui discutindo algumas questões que
ficaram e que são para mim fundamentais. Eu tenho ansiedade
de discutir, não faço isso por nenhuma definição discursiva
do tipo "eu tenho que fazer isso, sou obrigada". Eu acho
que O rap do pequeno príncipe, por exemplo, é um filme
que trata dessas questões, e é de uma geração mais nova, uma
outra realidade. Hoje você não vive uma situação efervescente
como a dos anos sessenta. Não tem a questão da utopia tão
presente como era. Mas acho que muitos dessa geração mais
nova têm preocupações que pelo menos não é a preocupação no
sentido estrito do yuppismo, de ganhar dinheiro. Tem pessoas
que querem trabalhar com questões mais sérias. Você não tem
hoje um movimento social que una. Eu apoio o MST, mas eu não
consigo ver uma situação pré-revolucionária nesse país, para
que eu vá lá pegar uma arma para invadir uma fazenda junto
com o MST. Essa é a grande distinção, quando eu tinha dezenove
anos eu fiz isso, peguei uma arma e fui lá.
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