Num encontro com alunos de Comunicação Social da PUC, após a exibição de Notícias de uma guera particular e Santa Cruz, João Moreira Salles falou de seus filmes, de sua carreira, e das dificuldades e encantos do gênero documentário. Cena por Cena esteve lá e registra aqui as melhores passagens desse rico bate-papo.


JOÃO DOCUMENTARISTA

Eu me formei na PUC em 86 em economia, mas no fundo eu queria ser médico, então eu errei completamente. Comecei a fazer documentário por acaso, não era uma vocação, uma coisa que eu queria ser desde criancinha. Na verdade, continuo em dúvidas se eu quero ser documentarista ou não. Comecei a fazer documentário assim que eu me formei. Sabia que não tinha vocação em economia. Waltinho tinha voltado do Japão com 50, 60 horas de material que ele tinha gravado lá, imagens sem pé nem cabeça. Ele tinha que colocar no ar uma série em cinco blocos e não sabia como fazer com aquele material bruto sem roteiro, sem espinha dorsal. E ele me pediu para ajudá-lo a tentar organizar aquele material. Como não tinha nada pra fazer, resolvi ajudá-lo. Olhei aquelas 60 horas de imagens e consegui organizar. Ele gostou e a série saiu na rede manchete. E o programa deu certo. Até então ainda não sabia o que fazer. Foi aí que o governo da China, tendo em vista esse programa sobre o Japão, resolveu chamar o Waltinho para fazer uma série semelhante sobre a China, no ano seguinte. O Waltinho, na época, começava a migrar para a ficção. Ele disse que topava fazer. Então o governo da China começou a montar todo o esquema, mandou passagens. E ele mandou o irmão para dirigir. Então eu fui, não sabia o que fazia um diretor, nunca tinha visto um set de filmagem na minha vida. Aí em grande improvisação foi feito China em 87. Foi o primeiro trabalho que eu dirigi e foi ao ar na manchete. Aí eu entrei nessa parte de documentário. E como é muito difícil você fazer uma coisa que você não gosta, eu resolvi gostar de fazer documentário. E foi uma decisão. Comecei a estudar sozinho o que era, qual era a história, enfim. O cinema documentário tem uma tradição que é tão rica quanto a do cinema de ficção. Ele tem na sua origem alguns dos maiores realizadores de imagem do século, como Flaherty, Vertov, gente do cinema direto, etc. Você tem sempre em documentário pessoas que fazem coisas que o cinema de ficção vem fazer depois. Por várias razões, por ser mais barato, a responsabilidade ser menor, o produtor não cobrar tanto, a capacidade de você experimentar acaba sendo maior. Enfim, eu fui gradualmente gostando de pertencer a esta tradição, de fazer parte de um grupo de pessoas que no fundo são parecidas um pouco comigo, com a sensibilidade.

O DOCUMENTÁRIO NO BRASIL

O documentarista não é igual a um diretor de ficção; é sempre mais reservado. Pois é um outro gênero, para uma minoria, para quem gosta. Não é para uma blockbuster. É um gênero em que você tem a possibilidade de refletir sobre a realidade de uma maneira delicada, íntima. E o seu público geralmente é um público que está interessado em discutir a realidade que está sendo mostrada. O público de documentário é um público mais qualificado. Mas é um gênero menor, pequeno. No Brasil ele se torna cada vez menor, muito em função da segmentação da televisão brasileira. As pessoas que faziam televisão de qualidade no Brasil - não estou falando de mim, estou falando do Coutinho, do Silvio, que fizeram alguns dos programas mais inteligentes da televisão brasileira na década de 70, 80, no Globo Repórter - hoje em dia não fazem mais porque a televisão aberta não permite mais a discussão de qualidade. Na verdade, todo mundo acabou migrando para a televisão a cabo, o que é perverso, porque, no fundo, você está segmentando mais uma vez a sociedade brasileira que já é tão segmentada. Quer dizer, quem tem acesso à televisão fechada evidentemente não são aquelas pessoas que acabam aparecendo nos documentários que a gente faz. Então esse é um processo perverso, muito complicado, eu não sei qual seria a solução para isso. Mas é uma coisa que a gente precisa discutir no Brasil hoje em dia, se a gente pode de fato entregar a televisão aberta à barbárie, levando em consideração que é o grande meio de informação no país. São quarenta milhões de pessoas que assistem televisão aberta no país. E com esta segmentação, até programas como o da Regina Casé acabam saindo da televisão porque perdem para o Ratinho. Isso é muito frustrante para o documentarista, porque você acaba falando com a sua própria igrejinha, você acaba fazendo filmes para pessoas que acham a mesma coisa que você acha, que partiram das mesmas condições. E aí qual a razão de fazer isso? Esse é um momento um pouco de impasse na produção de documentário no Brasil.

DOCUMENTÁRIO X FICÇÃO

Hoje em dia eu me sinto muito à vontade sendo um documentarista, faço questão de dizer sempre que sou antes de tudo um documentarista e não um cineasta. Eu acho que existe uma diferença entre estas duas categorias. Acho que é importante que as pessoas que queiram fazer documentário entrem para fazer documentário, não achando que o documentário é uma primeira etapa para se fazer coisas mais importantes, como, por exemplo, um filme de ficção. Geralmente o documentário é visto no Brasil como um degrau necessário pelo qual você precisa passar para ir em direção a coisas mais importantes e a coisa mais importante é o filme de ficção. Isso não precisa ser necessariamente assim, mas é como é visto no Brasil. Eu acho que são pouquíssimos os documentaristas no Brasil que são de fato documentaristas. Eduardo Coutinho é um, que é documentarista, e quer ficar no documentário, não tem o desejo de passar para o cinema de ficção

"O DOCUMENTÁRIO ESTÁ PRECISANDO DE UM CERTO INFLUXO DE ORIGINALIDADE"

E eu acho que o documentário está precisando de um certo influxo de originalidade e de energia, e eu acho que isso não vem dos cineastas ou de pessoas que necessariamente lidam com imagem, eu acho que vem de pessoas que são curiosas em relação à realidade, que têm um certo fascínio pelo mundo. Eu acho que, por exemplo, jornalistas podem dar uma contribuição inacreditável para o gênero no Brasil nesse momento. Talvez o momento mais estupendo do documentário, certamente o momento do pós-guerra, nos últimos cinqüenta anos, não foi produzido por cineastas, mas por jornalistas, na década de 60 nos Estados Unidos, com a maneira de olhar para o mundo dos jornalistas, foram eles que revolucionaram a história do documentário. Eu acho que a gente está precisando de pessoas com idéias e vontade de produzir. Eu tento estimular as pessoas a desejarem se tornar documentaristas e a inventarem uma nova maneira de contar as histórias. A maneira de contar está muito viciada. É claro que é muito difícil ser um documentarista, muito pouca gente consegue viver disso. Precisamos discutir como patrocinar esses filmes, como viabilizá-los, torná-los vistos, mas acho que toda vez que alguma coisa nova aconteceu foi porque havia um enorme obstáculo que precisava ser superado. Acho que a gente está diante de alguns obstáculos que são perfeitos para que a gente possa, ao superá-los, inventar uma maneira nova de fazer documentário. Acho que a dificuldade é fértil. Os exemplos são infinitos. Há um documentário absolutamente maravilhoso, chamado Ana dos seis aos dezoito. É um documentário feito por um cineasta russo (Nikita Mikhalkov), que fez um filme com a filha dele. Através do olho desta menina, que no início do documentário tem seis anos e no fim tem 18, você percebe claramente o esfacelamento do sistema soviético, você percebe que aquilo não vai dar certo, como de fato não deu. O filme começa em 1980 e termina depois da queda do Império e você percebe isso através do olho dessa menina. Como ele fez esse filme? Como os filmes não podiam ser feitos sem autorização oficial, dos filmes oficiais que ele fazia, ele guardava um rolo, roubava um rolo. O filme é feito ao longo de doze anos, ele rodava dez minutos a cada ano. Nesses dez minutos, ele coloca talvez cinco perguntas para sua filha: de que você tem mais medo?; com o que você sonha?; o que você gostaria de ter e não tem?; qual sua comida predileta?. São perguntas que ele faz no dia do aniversário da menina. Esse filme foi feito da forma mais simples possível, diante de todos os obstáculos que vocês possam imaginar e da forma mais barata que vocês possam imaginar. É um dia de câmera a cada ano, com um rolinho de filme de dez minutos. Eu acho que o documentário tem essa coisa altamente fascinante de você fazer coisas absolutamente extraordinárias, incorporando uma dificuldade, a impossibilidade de fazer cinema. Na década de 90 nos Estados Unidos surge um movimento que se chama de auto-etnografia, que são pessoas que começam a falar de si próprias, são filmes autobiográficos. É o negro que fala da condição de negro, é o cearense que fala da condição de ter nascido homossexual no sertão do Ceará. São filmes feitos com cinco, seis, sete, oito mil dólares, não mais do que isso, filmes de bricolagem, você pega imagens de arquivo, junta com imagens de vídeo, pega high eight, junta tudo isso e consegue fazer um filme em que você fala da sua condição, e ao falar da sua condição você fala do mundo inteiro. É muito legal falar de documentário, porque ele é uma utopia, falar de cinema no Brasil é uma utopia. De cada cinqüenta pessoas que querem fazer um longa-metragem talvez meia consiga realizar, porque é realmente muito complicado, o funil é muito estreito. Temos que começar a fazer da forma que você encontrar, com a câmera que você tiver. E aí eu acho que com uma produção rica desse tipo de documentário mais pessoal, menos ambicioso, que não queira falar do mundo inteiro, que queira falar de você, da sua tia, da sua avó, do seu bairro, do seu cotidiano, se tiver uma marca crítica, é possível fazer com que isso se torne uma produção mais constante. Ano que vem eu vou criar um centro de estímulo de modo documentarista. A idéia é que pessoas que já tenham feito um filme, da forma mais improvisada possível, de forma não comercial, um filme que vocês fizeram para vocês, se vocês mandarem, vai haver um grupo de documentaristas - o Coutinho topou, o Silvio topou -, a gente vai analisar os filmes junto com a proposta de um próximo filme. As melhores idéias, os melhores realizadores vão ganhar a possibilidade de produzir esse filme, duas semanas de equipamento, som, câmera, e quatro semanas de edição. Eu estou conversando com a GNT para que ela crie uma grade específica para essa produção.

O DOCUMENTÁRIO AUTORAL

O primeiro grande documentarista que é o Flaherty, ele reencenava tudo. Ele é o que Grifith é para o cinema de ficção, o que Homero é para a literatura. Então na origem do documentáro já tem essa pergunta: até que ponto você manipula ou não manipula? Eu cada vez mais estou convencido de que manipular não é o verbo certo. Se você entender o documentário como um gênero autoral, essa pergunta passa a não fazer sentido. E eu acho que o documentário, se ele não for autoral, ele não é rigorosamente nada, se ele não refletir o ponto de vista de quem está fazendo, ele não merece ser visto. É evidente que não existe uma imparcialidade. Essa idéia de imaginar que o documentário possa ser uma visão objetiva, desencarnada da realidade é um erro; ele sempre é a visão de alguém. Quando eu decidi fazer Notícias de uma guerra particular junto com a Kátia, e decidimos tentar ouvir todo mundo, essa já é uma decisão que determina a cara que o documentário vai ter. Quanto mais eu penso sobre isso, mais eu chego a uma conclusão: o que me leva a ver um documentário não é a realidade que o documentário está retratando, mas é o documentarista que está fazendo o filme. Me interessa saber o que ele acha. Tem uma coisa que me incomoda muito no documentário e que é um vício de origem no documentário. O documentário nasce com dois grandes patrões. Um é o Flaherty, que é o cara que faz o Nanook, que é a história de um esquimó. Com isso, ele inaugura o exótico no documentário. O documentarista vai sempre buscar aquilo que é radicalmente diferente dele, aquilo que é espetacular. E você tem numa outra mão, uma segunda matriz fundamental, que é do cinema social inglês da década de 30. Estou falando basicamente do Grierson. É quem vai filmar os marginalizados, o cara que está com fome, o cara que está doente, o cara que não tem casa, o cara que não tem emprego, etc. E aí se inaugura no documentário essa história, ou você vai filmar aquilo que é muito diferente e espetacular, ou você vai filmar aquilo que é muito miserável e portanto diferente também. Documentaristas nunca estão com sede, com fome ou com frio e nunca são esquimós. O que acontece é que no documentário tem sempre a idéia de uma viagem. O documentarista sai de seu mundo e vai para outro mundo filmar aquilo que ele não é. E aí ele traz de volta para o seu mundo as imagens que ele captou lá. Estou tentando mostrar que há um outro caminho do documentário que é muito pouco explorado, infelizmente, que é o documentário sobre coisas triviais, cotidianas, bonitas porque são simples e que estão ao lado da gente. Você não precisa fazer essa viagem, ir para o outro lado do mundo. O que é muito peculiar e que eu acho muito estranho é que se eu olho para minha estante de documentários - e eu tenho muitos - 95% dos documentário fazem essa viagem. É o documentarista contando uma história que não é a dele. Isso está na origem da história do documentário. E eu acho que chegou a hora das pessoas falarem de si próprias. Eu acho que a única pessoa que fez isso no Brasil foi o Jabor em 66, que fez um documentário sobre a classe média de Copacabana (Opinião Pública), da qual ele fazia parte. Isso é uma coisa muito rara. É muito difícil você imaginar que a sua história possa ser interessante e no fundo ela é. Na década de 90 surge esse tal movimento das pessoas que descobrem que importante é a sua história e que você só vai poder fazer essa tal viagem e conhecer o mundo se você se conhecer antes. O que é curioso no Brasil é que os documentaristas sobem o morro, vão para o Nordeste filmar a seca, e sequer sabem quem são, não se analisaram antes, não fizeram filmes sobre o mundo deles. Então, na verdade, vão na ignorância buscar aquilo que não sabem. Não pode dar certo, raramente dá certo. Mais do que isso, o documentarista tem a pretensão de ser um observador imparcial e objetivo. Não só ele não se conhece, como ele sequer se analisa, ele não quer fazer parte deste enredo, o enredo é sobre o outro. O que eu procuro fazer no meu trabalho é cada vez mais assumir meu ponto de vista. Meu filme sobre a igreja evangélica (Santa Cruz) não é sobre a igreja evangélica e sim sobre como eu vejo o fenômeno da igreja evangélica, é uma fatiazinha do fenômeno evangélico, que é aquela que me interessou fazer. O grande mérito do Cabra marcado para morrer - que eu particularmente não considero o maior documentário brasileiro, considero o segundo maior documentário brasileiro, o primeiro para mim também é do Coutinho, é o Teodorico - é que ele é tanto um filme sobre uma família que vivia uma diáspora durante o regime militar quanto um filme sobre o Coutinho tentando descobrir o que aconteceu com essa família. Por isso que é um filme tão poderoso.


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