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Ela
diz que foi meio por sorte, meio por acaso que começou
a escrever roteiros, mas depois do sucesso de Eu
tu eles e de Gêmeas Elena
Soárez não parou mais de receber convites
para escrever. Ela brinca, diz que qualquer um pode
ser o seu último roteiro, mas parece mesmo que ainda
vamos ver muitas vezes o seu nome na telona.
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CC
- Você
se formou em economia e fez mestrado em antropologia. Como
se deu o salto para o cinema? Como você começou a escrever
roteiros?
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Elena
Soárez - Foi uma aproximação lenta. Fui fazer vestibular
com 17 anos e não tinha muita noção do que ia fazer,
então fui fazer economia, porque era a coisa mais tranqüila
que o meu pai me permitiria fazer. E foi um suplício,
basicamente eu pulava tudo quanto era número e estudava
só pelo texto. Mas apesar disso tudo o curso de economia
na Puc era lindo, maravilhoso, então comecei com aula
de filosofia, história, comecei a ver que era mais para
esse lado que eu deveria me encaminhar. Quando fui fazer
mestrado eu sabia que era algo em Ciências Sociais,
escolhi o Museu, que era o mais legal.
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Durante
o museu, eu fui sacando que também não era exatamente
aquilo, não ia ser antropóloga mesmo. Tinha o trabalho
de campo que era uma coisa que requer uma vocação muito
clara, você realmente tem que ser bastante abnegado, gostar
de viver no mato, e eu não era tão abnegada assim. Então
passei dois anos escrevendo a tese e quando eu estava
escrevendo foi uma coisa muito legal porque foi uma idéia
original que meio me ocorreu de cagada. Então eu comecei
a suportar bem aquele negócio de trabalhar sozinha em
casa escrevendo. Esse negócio de escrever como ofício
ficou como uma possibilidade real. |

CC
- Quando
foi isso?
Elena
Soárez - Isso
foi em 1992. Acabei a tese, de novo tinha que começar do começo.
Mas eu já escrevia vídeo institucional, que é chatíssimo,
né? Passei seis anos fazendo isso, mas era como eu me sustentava.
Até que apareceu o Eu tu eles, que a princípio era para ser
um curta, depois foi crescendo, crescendo e foi com ele mesmo
que eu fui escrevendo e aprendendo a fazer. Depois apareceram
outros convites. Isso já tem uns seis, sete anos, foi uma
aproximação lenta e sofrida, porque eu passei dos vinte aos
trinta anos procurando, me dava um desespero. Sempre fui muito
esforçada, sempre quis alguma coisa e não vinha, eu lá com
29 anos olhava e pensava: "não vai ter lugar pra mim, eu não
vou conseguir". Hoje em dia estou satisfeita.
CC
- Já
que você citou o Eu tu eles, como foi o processo de
criação desse roteiro?
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Elena
Soárez - Foi difícil, foi meu primeiro filme, eu
não conhecia nada, não sabia nem como era formato de
roteiro. Foi um filme que foi a minha formação. Além
disso, a gente enfrentou uma série de dificuldades
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porque
também era o primeiro filme do Andrucha e a gente ficava
pensando que tipo de filme a gente queria contar. Foi
um amadurecimento que não deu pra abreviar, foram mais
de quatro anos.
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CC
- Você
foi in loco conhecer as personagens, não foi?
Elena
Soárez
- Isso foi bem no começo, eu fui conhecer a família verdadeira
e eu fiquei muito impressionada. Foi uma coisa que me prejudicou
até, porque eu fiquei tão impressionada com os personagens
reais que eu fiquei muito tempo prisioneira daquilo. Ficava
descrevendo o que era real e a dramaturgia tem outras necessidades.
Eu tinha que me livrar daquilo para começar a contar uma história
de ficção. E foi duro, levei muito tempo ali e acabou que
ficou igual(risos).
CC
- As
personagens reais assistiram o filme?
Elena
Soárez
- O Andrucha foi levar o filme lá em Morada Nova, que é a
cidade em que a Marlene (personagem real) vivia. A Marlene
viu e parece que ela gostou bastante, ela é engraçada, espirituosa,
forte...
CC
- Tanto
o Gêmeas quanto o Eu tu eles são baseados em
histórias já prontas. O Gêmeas num texto do Nelson
Rodrigues e o Eu tu eles numa história da vida real.
Você prefere trabalhar com adaptações ou com argumentos originais?
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Elena
Soárez - Bem, há uma diferença enorme para o roteirista,
eu não sei se todo mundo acha isso, mas é tão mais difícil
escrever um argumento original, por motivos óbvios.
Você tem que fazer tudo sozinha e tem um tempo de maturação
de um universo que não existe, um tempo que você não
consegue estipular facilmente. Você tem, por exemplo,
o Eu tu eles que levei quatro anos e meio escrevendo,
e o Gêmeas, que eu escrevi em dois meses.
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Tudo
bem que são filmes que têm propostas absolutamente diferentes,
mas de qualquer forma... O Gêmeas que tem uma
hora e pouco vem de duas páginas de Nelson. E Nelson
Rodrigues, você já conhece todo o universo que ele inventou,
você conhece os personagens, sabe como eles falam, é
mais fácil. Mas em geral eu não dou muita sorte não,
é sempre argumento original, você parte do zero e demora,
dá um pouco de angústia.
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CC
- Qual
o peso do roteiro e do roteirista no resultado final do filme?
Elena
Soárez
- O peso do roteirista é enorme porque afinal é você que escreve
a história, agora é também importante que cada um saiba o
seu lugar, a sua função e que esteja confortável e feliz no
que faz. É claro para mim que o filme é do diretor; ele é
do diretor antes do roteiro e depois do roteiro, porque parte
do diretor a vontade de fazer o filme. Em geral ele já te
aponta um caminho, ele tem uma idéia ou às vezes até uma história
pronta. Você entra, escreve, realmente naquela hora o filme
é só seu. Mas o seu produto é um papel, o roteirista não entrega
filme, entrega um papel. E o filme é em película, é imagem,
e a imagem é do diretor.

CC
- Você
usa alguma fórmula para a elaboração de roteiros, alguma coisa
tipo Syd Field, ou você deixa a criação rolar?
Elena
Soárez
- No começo, por ignorância, eu deixava a criação vir, para
ver o que acontecia, porque eu não conhecia nenhuma fórmula.
Era um trabalho altamente lusitano, que você fica fazendo
sem saber onde está indo, não vendo nada na frente, um trabalho
bestial. O negócio do Syd Field não resolve a vida de ninguém,
mas com a experiência você vai ver que aquilo é uma coisa
comprovável. Se até lá mais ou menos na página trinta não
aconteceu nada, é melhor que aconteça, porque as pessoas já
estão de saco cheio provavelmente. Então você vai vendo que,
salvo alguma grande genialidade - que não me ocorreu até hoje
(risos) - aquilo ali é uma coisa que rola, independente de
você marcar a página 27 para fazer o primeiro ponto de virada.
Hoje em dia com o mínimo de experiência que eu tenho, eu já
não saio completamente às cegas. Quer dizer, a fórmula te
dá o que a prática também te dá. Porque também não adianta
nada você ler a fórmula sem a experiência.
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