Não se trata apenas de tecnologias diferentes, mas de tempos diferentes. As transformações nas tecnologias de montagem do filme têm repercussões na linguagem do cinema e no modo de percepção do espectador. Chico Moreira, que trabalha com montagem desde 1977, compara o trabalho de operações braçais da moviola com a agilidade da edição não-linear no computador.

 


CC - Como você começou a trabalhar com montagem?


Chico Moreira - Uma das coisas que eu fiz na UFF foi cinema e aí eu não sabia muito bem o que eu queria. Aí a primeira coisa que eu fiz foi assistência de câmera mas eu não gostei muito, achei que não era muito a minha. Na UFF mesmo eles estavam começando a montar um filme chamado "Memória Goytacaz" e fazia parte do curso você assistir aquele negócio. Aí foi a primeira vez que eu vi o moviola e eu comecei a gostar daquele negócio.

Aí depois eu fui trabalhar na Embrafilme, antes disso eu passei pela televisão e tal mas não tinha nada a ver com montagem. Na Embrafilme eles estavam começando a produzir um programa chamado Coisas nossas que era um programa de documentário. Foi meu primeiro trabalho, comecei a sincronizar som com a imagem. Depois nessa mesma época eu conheci o Sílvio Tendler, então o primeiro longa que eu montei foi "Anos JK".


CC - Com os avanços tecnológicos e edição não-linear como está o papel do montador?

Chico Moreira - Na verdade são só ferramentas de trabalho. Outro dia eu fui no cinema assistir "Os reis do iê-iê-iê", eu já tinha assistido na época, então eu acho que a grande revolução foi desse filme pra cá. A linguagem de vídeo-clip já estava tudo ali. Houve uma época em que as pessoas começaram a cortar de um lado pro outro sem muito sentido. Isso foi bom e ruim. Porque isso agilizou em muita coisa o ritmo do filme e essa coisa toda. Educou o olhar das pessoas. As pessoas antigamente custavam mais a perceber as coisas, hoje não, em fração de segundos você percebe. Mas basicamente o que aconteceu é uma maior rapidez, uma agilidade. Se bem que existem diretores que acreditam que têm que trabalhar na moviola, porque enquanto você está rebobinando o filme você está pensando na sequência que você vai fazer, hoje não tem isso, é aquela coisa instantânea.



CC - Essa agilidade é facilitadora?

Chico Moreira - Eu acho que aí tem uma diferença, quer dizer, no momento eu estou montando um curta na moviola e outro em avid. No avid eu penso 100% na montagem, porque é uma operação tão simples e tão rápida que você fica muito mais ligado. Na moviola, você tem uma série de operações absolutamente braçais e que me tiram pelo menos 20% da atenção. Às vezes você tem uma idéia, mas para executar, tem um plano lá na frente e outro aqui atrás

para você juntar, no meio da execução provavelmente a sua idéia já mudou. Então essa coisa instantânea, essa coisa da rapidez, dá uma agilidade que eu acho que faz você pensar mais. Eu não sou contra a moviola não, adoro a moviola, mas realmente você tem ali em função do tempo dos trabalhos que você tem que fazer na operação da máquina mesmo, eu acho que é uma coisa muito... eu acho que o computador faz com que você esteja mais atento à montagem.




CC - Quais as qualidades necessárias a um montador?

Chico Moreira - Tem que ter saco paciência, e é claro capacidade de articular as coisas. É um processo realmente muito tenso, é a fase final do negócio. Tudo que acontece antes sempre estoura na sua mão. Sempre tem aquela coisa, "não, a gente conserta lá na frente", e na verdade não conserta.


 

 


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