Nossa entrevista desta vez é com a documentarista Thereza Jessouroun que fala sobre a elaboração de seu documentário "Samba" e o processo de criação no morro da Mangueira. Conta também sobre o começo de carreira e das vantagens de se fazer um filme em digital.

 


CC - Como você começou a trabalhar com documentário?


Thereza - Eu trabalho com cinema desde 79, eu comecei a fazer continuidade, fotografia de cena, assistência de montagem e depois eu comecei a trabalhar com documentário com Eduardo Coutinho. E aí eu trabalhei seis anos com ele. Eu sempre quis trabalhar com documentário, mesmo quando eu trabalhava com longa - trabalhei oito anos com longa-metragem, fazendo essas funções - mas o documentário era sempre o meu objetivo, mas não tinha como. Eu trabalhava com ficção e só conhecia as pessoas de ficção. Eu não sabia como chegar. Aí quando eu vi o filme do Coutinho Um cabra marcado para morrer eu falei "nossa, eu quero trabalhar com esse cara", e aí um dia rolou. Comecei a trabalhar lá no Cecip com ele e foi aí que eu entrei mesmo em documentário, eu aprendi mesmo documentário foi com ele. Aí eu comecei a produzir documentários para televisão estrangeira. Comecei a fazer umas coisinhas em vídeo, fiz um documentário sobre travestis.


CC - Foi o primeiro que você dirigiu?

Thereza - Foi o primeiro. Chama Alma de mulher, ganhou vários prêmios, estou vendendo agora para a Itália também. E aí comecei. Acho que é o caminho natural mesmo, você começa a trabalhar com assistência de direção... Eu sempre tive um pé na direção e documentário sempre foi a linguagem que eu queria. Eu gosto muito mais dessa coisa da verdade do que da ficção.

Eu adoro ser espectadora de ficção, mas para trabalhar mesmo, eu estava há muito tempo já querendo o documentário. Então foi assim mesmo que eu comecei, com Eduardo Coutinho, Eduardo Escorel, trabalhei com o Silvio Tendler, trabalhei também com Geraldo Sarno. Com certeza eu tenho muita influência do Eduardo Coutinho na minha maneira de filmar.



CC - Como surgiu a idéia de fazer o Samba?

Thereza - Eu escrevi uma proposta de fazer uma série sobre danças brasileiras, as danças sendo abordadas como identidade cultural, como elas interferem na vida das pessoas. Tinham várias danças, era uma série de três documentários. Eu comecei a captar para isso e não consegui captar para três, eram três em 16mm, era muito mais caro. Tem o concurso anual do BNDES que dá dinheiro para documentário. Na época eles davam 15% do orçamento que você apresentasse. Agora já mudou, agora eles dão R$ 200.000, o critério mudou. Então eles me deram 15% do orçamento total. E aí eu fiquei ainda durante um ano tentando captar para o resto, mas não consegui. Então eu redimensionei o projeto, existe essa abertura no Ministério da Cultura. Quando o seu prazo de captação acaba, se você não captou, ou você devolve o dinheiro que você captou e desiste ou você redimensiona o projeto. Então eu redimensionei para fazer uma das danças e eu optei por fazer samba. E aí eu resolvi fazer na Mangueira.



CC - Por que na Mangueira?

Thereza - A proposta era mostrar o samba, o samba desglamourizado, o samba diferente do que os turistas vêem da gente, a mulata no samba não é a mulata nua desfilando na Avenida, não é isso, é desestereotipar o samba. É mostrar que o samba está no sangue das pessoas, está na vida delas, elas dançam o samba porque elas aprendem com a família, desde pequenininho eles sambam. Então não é aquele espetáculo da avenida, isso não é samba, ou é também, mas é só uma conseqüência dum ano inteiro na vida das pessoas. O samba é muito mais que isso. É a vida deles, eles vivem disso. Tem gente que é o samba. Mestre-sala e porta bandeira vivem para isso e a vida deles é isso. É um amor enorme pela escola, se dedicam,

viajam, passam a vida inteira em função da escola, então isso que eu quis mostrar. Eu escolhi a Mangueira porque a Mangueira é isso, é uma escola que não tem bicheiro, é uma escola que tem trabalho na comunidade com o samba, é uma escola que mantém a tradição. E foi ótimo ter escolhido a Mangueira. Os personagens do filme são maravilhosos, têm uma vida com samba super rica. Ter conhecido a Mangueira e as pessoas da Mangueira, eu mudei. É legal o documentário porque a gente muda, a gente se transforma na relação com as pessoas. A solidariedade que existe na Mangueira, entre as pessoas, é muito bonito de ver.



CC - Você partiu de uma questão teórica, o samba não era a sua vivência no dia-a-dia, e aí você foi lá buscar alguma coisa. Que tipos de surpresa o documentário te trouxe, o que não era previsto teoricamente?

Thereza - Você lê pra caramba, estuda pra caramba, eu vi um monte de vídeos, enfim, a dança pra mim mudou de conceito desde a pesquisa. Eu queria buscar a relação das pessoas com a dança, mas eu não esperava que fosse tão intenso, eu não sabia que as pessoas se dedicam dessa maneira. O documentário tem uma tendência a mostrar o pobre como coitadinho, excluído, pobrezinho, e não é isso, a Mangueira é uma lição de vida, de felicidade, eu acho que isso é a principal surpresa. As pessoas lá vivem em condições difíceis, moram no morro, tem muita gente desempregada, tem filho cedo, não tem dinheiro, inclusive as pessoas que vivem do samba não têm como viver bem, porque a Mangueira não é uma escola rica, eles não ganham dinheiro. Então eles se entregam à dança, a dança é a vida para eles. As pessoas sambam de oito aos oitenta anos porque a vida é samba, é uma porção de outras coisas e é samba também, vida é amor, é família, é trabalho, é falta de dinheiro, é um monte de problema e é samba. Tem samba no batizado, tem samba no casamento, tem samba no enterro, tem samba em tudo. Você lê e pensa que não é verdade, é verdade. E não deve ser só na Mangueira. A gente não tem idéia da dimensão do sentido disso porque a gente não é desse mundo. Na Mangueira tem projeto de passista mirim. É muito bonito, as crianças não estão na rua, é um projeto social. As crianças chegam do colégio e ao invés de ficar na rua, no meio dos traficantes, elas vão fazer aula de samba, de mestre-sala, de porta-bandeira.





CC - Por que você optou por um média-metragem e que dificuldades você está encontrando para distribuição?

Thereza - Eu nunca quis fazer curta-metragem, eu acho que o curta é muito mais adequado para a ficção, porque é um espaço pequeno, tem que haver uma síntese no curta, e eu acho que o documentário não cabe nessa síntese. O documentário significa aprofundar alguma coisa e no curta você não tem muito tempo. A não ser que seja um curta sobre, por exemplo, um dia na vida de um catador de lixo, é uma proposta diferente. Eu não estou dizendo que eu nunca vou fazer um curta, mas eu estou dizendo que dependendo do tema, não cabe muito em curta. Então a proposta era fazer um média. A proposta inicial era de três médias-metragens para a televisão. Quando eu vi que o dinheiro só dava para um curta em 16mm, eu resolvi fazer um média em digital. Quando chegou na edição, no corte final, a gente estava com 1h15m, e todo mundo falava "você tem que fazer um longa", mas eu não tinha dinheiro para terminar um longa. Aí foi uma dor horrível para cortar esses vinte minutos. Eu acho que cada filme tem o seu tamanho. Eu ainda não paguei tudo, falta uma grana ainda para lançar. A dificuldade que tem é a seguinte: o média-metragem, o único mercado que ele tem é a televisão, o formato média-metragem é o ideal para documentário para televisão. Porque ele é em 35mm? Porque ele é da Lei do Áudio-visual, Lei do Áudio-visual você tem que entregar em película, ou 16mm ou 35mm, eu podia ter passado para 16mm, mas aí é que ninguém ia ver mesmo, só festival. Tinha essa coisa de kinescopar para 35mm, com ótimos resultados, essa experiência nova, e eu resolvi fazer. Agora tem um projeto iniciado pela Riofilmes, que é colocar o filme junto com um curta. Tem um projeto que eu acho super legal, que é criar um horário em alguns cinemas para documentário, duas da tarde ou quatro ou nove, um horário que fosse melhor para o exibidor, mas que criasse um horário que só passasse documentário, quem quiser ver documentário, dentre os vários que tem aí, vai lá e vê, cada dia um, ou cada semana um.



CC - Por que você optou primeiramente pela televisão?

Theresa - Porque como eu na tinha dinheiro para fazer longa e nem me sentia preparada para fazer longa ainda, e o mercado real que existe para documentário é a televisão. É um fato isso, as televisões estrangeiras compram e média-metragem é o formato, em televisão tem ou 26min ou 52min. Em 26min não cabia o meu filme, não tinha como.

Porque você também vai sabendo o tamanho do seu filme durante a pesquisa e aí deu 52 min. Na montagem, eu tinha trinta horas de material, eu não podia nunca ter feito trinta horas em 16mm, só em digital. De 30 horas eu consegui ter 1h15m super legal, mas quando eu fui fazer a conta 1h15m para transformar em 35mm era muito dinheiro, não tinha.




CC - Você gostou de trabalhar em digital?

Theresa - É maravilhoso trabalhar em digital. É a melhor coisa que existe para o documentário. Porque, primeiro, você não precisa de luz, a gente quase não usou luz. Você filma de noite na rua, o ensaio da mangueira, que é feito em frente a quadra, foi só com a luz do poste, está lindo. Você entra na casa das pessoas e não precisa iluminar nada. A gente iluminava por insegurança: "será que vai ficar granulado na hora que kinescopar?" Porque como kinescopia é uma coisa nova para todo mundo, a gente não sabe ainda o que é que resulta, mas hoje se eu for fazer outro eu tenho certeza que eu não

vou iluminar mais, porque eu sei que resulta bem. E não iluminar muda muito a relação com as pessoas. Quando você chega e ilumina o lugar se transforma. Você entra na casa de uma pessoa que vai abrir o coração pra você, porque eles abrem o coração, falam da vida delas, dos amores, e com uma luz na cara, você consegue falar com uma luz na cara? Eu não consigo. Você fica ali com aquela camerazinha, uma equipe pequenininha, sem luz. Digital é a grande saída para o documentário, como barateia, o caro é a kinescopia...




 


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