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Mário
Carneiro é formado em arquitetura,
faz pintura e gravura. Além de algumas incursões
pela montagem e direção, foi responsável
pela fotografia de vários clássicos da
cinematografia brasileira (Arraial do Cabo, Porto
das Caixas, O Padre e a Moça, Capitu, Crônica
da Casa Assassinada, etc.). Depois de ter atravessado
quatro décadas do cinema brasileiro, Mário
continua filmando e apostando em sua linguagem - cheio
de paixão, experiências e histórias
para contar.
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CC
- Para
começar, a gente gostaria de saber o que você,
de dentro do movimento, percebia como sendo a estética,
a fotografia e a linguagem do Cinema Novo.
Mário
Carneiro - O
Cinema Novo, como o nome já indica, é
uma coisa nova. A gente não tinha bem uma idéia
do que ia fazer não. Quando você faz cinema,
as coisas vão se fazendo durante o ato de filmar.
Você não tem uma estética. Muita
gente acha que tem. E perguntam: "O que você
pensava?" Em geral a gente pensava nessa possibilidade
de fazer cinema. Este era o ponto principal: encontrar
meios para se fazer um filme. Os meios não no
sentido da grana, era ter o saber fazer o filme. Eu
fazia uns filmes de amador, com uma camerazinha pequena,
pegava uma Bolex, fazia uns filmes familiares ou então
fazia uns filmes meus, mas nunca tinha pensado em virar
profissional de cinema. Eu era arquiteto, fazia gravura,
pintura. Meu caminho era esse. Mas a minha geração
não tinha essa vocação meio antiquada
que eu tinha de ter uma prensa de gravura do século
XIX enfiada dentro de um ateliê em Copacabana.
Eles queriam cinema. E não havia naquela época
essa vontade de fazer filme meio geral que você
encontra hoje, era muito raro. Tinha esse grupo que
virou núcleo do cinema novo, que tinha suas origens
em cine-clubes, o cine-clube do Alípio de Barros,
o cine-clube da filosofia com Plínio Sussekind
da Rocha. A gente começava a ver filmes e descobrir
que o cinema era uma coisa muito inteligente, era uma
arte. A gente já sabia disso, mas não
com essa visão didática que o Plínio
Sussekind dava para a gente quando botava Eisenstein
e dava toda a teoria do Eisenstein, quando o Alípio
falava sobre o Renoir, o cinema francês. Enfim,
essas noções vieram pingando em cima da
gente. Eu fiquei muito marcado pela visão do
Limite, que o Plínio também tinha uma
cópia, uma obra fundamental, uma fotografia de
cinema no Brasil de alto nível, como era a do
Edgar Brazil. E eu com a minha camerazinha fazia as
coisas sem nenhum problema. Filmava tudo ao ar livre,
99% ao ar livre, acho que mesmo 100%, sem nenhum problema.
Não havia essa marca que a minha geração
herdou de que os filmes bons tinham que passar pelos
estúdios, tinha que ter luz pesada, tinha que
ser difícil de fazer, complicado. Nada que era
fácil podia prestar, para ser bom tinha que ser
caro, difícil, impossível, de preferência
impossível para a gente não fazer cinema.
Uma idéia que as escolas passavam era uma idéia
castradora: "Você não deve fazer porque
é uma bobagem tentar fazer o que não está
ao teu alcance. Menino, vai brincar de outra coisa."
Esse era o tom. Mas a gente começou. Eu com essa
experienciazinha de filme de 16mm de amador. Eu lia
umas revistas, revistas de cinema amador ensinavam muito
mais do que as revistas de profissionais, que não
tocavam em assunto nenhum de técnica. Técnica
era um assunto resguardado, pertencia aos estúdios,
aos grandes profissionais. Você não tinha
acesso, a bibliografia era muito restrita, mesmo livros
em francês ou inglês eram muito poucos para
você aprender fotografia de cinema. Mas, enfim,
com esses rudimentos, a gente foi se apaixonando pela
idéia de fazer cinema. E aí foi quando
apareceu a chance de fazer primeiro Arraial do Cabo.
Primeiro eles viram meus filminhos, assim desse grupo,
Joaquim Pedro, Leon, Paulo César, veio basicamente
o grupo dos cariocas, do Rio, depois chegou Glauber,
chegaram os baianos. Nelson Pereira não, porque
o Nelson já era um cineasta profissional. O Nelson
já tinha uma áurea de mito. Era uma pessoa
que já tinha conseguido fazer dois filmes dentro
do Brasil. A nossa geração não
pensava muito como o Nelson. Porque o Nelson tinha muita
influência do cinema italiano, neo-realismo italiano,
aqueles projetos sociais muito politizados, nenhuma
preocupação poética. Eu como era
artista plástico, fazia gravuras, a minha preocupação
era exatamente a de continuar, nesse caminho do cinema,
descobrir um viés, como se diz hoje, para botar
as minhas idéias e a minha emoção
de artista plástico dentro desse mundo aí.
Então a minha fotografia ficou sendo uma fotografia
considerada na época formalista. "Mário
é formalista, Mário pensa que cinema é
gravura." Tudo isso eu tinha que ouvir e engolir.
Mas eu jamais peguei uma câmera com a idéia
de fazer gravura. Para isso eu tinha a minha prensa.
Nunca confundi alhos com bugalhos. Eu separava muito
bem. Tinha um ateliê, tinha uma boa camerazinha
para fazer fotografia, tinha um laboratório.
Então botava cada coisa em seu lugar e a minha
cabeça para funcionar naquilo que eu tinha que
fazer naquela hora. E é claro que as influências
do meu aprendizado de pintor, de arquiteto, valeram
muito para o meu olhar mais depurado, um olhar mais
educado. É um olhar útil, não é
o olhar que me atribuíam, de ficar enfeitando
o quadro. Eu jamais enfeitei o quadro. Eu fazia rápido,
bateu, valeu. O olhar era a minha capacidade de selecionar
o que era útil dentro daquele plano e limpar
o plano das inutilidades, simplificar. Simplificar e
dar força ao quadro. Então, eu acho que
a estética do Cinema Novo veio muito desse olhar
que era ao mesmo tempo estético e ao mesmo tempo
tinha uma necessidade de limpar o quadro das bobagens,
desses artifícios. Eu não usava rebatedor
nenhum, tinha horror a áureas luminosas dos cabelos,
gostava da sombra como ela é. Enfim, essas coisas
que hoje em dia são modernas, as pessoas aceitam.
Mas se eu pusesse o rosto assim contra a luz sem o rebatedor,
jogando sombra naquela parede, era uma coisa inaceitável,
"você está traindo o ator, você
tem que preferir o rosto do ator." Esse era a grande
briga que eu tinha com o Joaquim Pedro. Eu consegui
fazer, por exemplo, O porto das caixas, com muita
silhueta, muita coisa silhuetada. E consegui fazer isso
com o Joaquim Pedro também n'O padre e a moça,
que é um filme de negros e brancos bem pujantes,
aquele padre sobre fundo branco, a moça sobre
fundo escuro, quando ela está vestida de branco.
Essa dualidade do branco sobre fundo preto, do preto
sobre fundo branco, isso estava na origem do próprio
poema do Carlos Drummond, que era Negro amor de rendas
brancas. O nome já tinha uma sonoridade parecida
com o que eu consegui como imagem. Mas foi uma luta
danada para conseguir isso, porque o Joaquim ainda tinha
muito do mito, ele tinha uma formação
que vinha lá da Vera Cruz. E a Vera Cruz era
a mitologia do estúdio. Quer dizer, no fundo,
a gente reverteu esse quadro, pelas próprias
necessidades de ser um cinema semi-documental que a
gente fazia, e não ter a necessidade dessas luzes,
dessas coisas que vinham do estúdio. Queríamos
ganhar a rua, para isso os italianos já tinham
inventado, quando eles passaram a fazer um cinema ao
ar livre, fora do estúdio, eles inventaram as
câmeras leves, o som direto. As câmeras
que eram usadas para filmar jornal durante as guerras
depois foram utilizadas para fazer os filmes ao ar livre,
filmes leves, com esse material que tinha muito a ver
com a documentação. Enfim, mais ou menos
a base estética do Cinema Novo era isso. E também
a coragem de uma crença que eu tinha no olhar.
Eu tinha visto muito filme bom na França. Eu
tive a sorte de ir muito cedo para Paris, com dezoito
anos. Eu fui muito a cinematecas, então eu vi
A paixão de Joana D'arc, filmes que tinham
esse preto e branco, essas afirmações,
essa coisa de uma imagem incisiva, sem floreio. Essas
coisas me marcavam de fato, eu detestava filmes históricos,
reconstituições complicadas. A paixão
de Joana D'Arc tinha uns enquadramentos incríveis,
com pouquíssimos artifícios. Então
essa linha a gente adotou e começou a dar certo.
Arraial do Cabo ganhou vários prêmios
internacionais. O padre e a moça foi muito
marcado, por exemplo, em Berlim, as críticas
eram muito favoráveis à minha fotografia.
Joaquim não. Joaquim ficou muito magoado pelo
fato de os atores não terem seus rostos destacados.
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CC - Esta
história a gente conhece. Só vinte e cinco anos
depois é que ele foi te parabenizar pela fotografia,
né?
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Mário
Carneiro - É, vinte anos depois ele assumiu
que era boa a fotografia. Então, não era
uma coisa fácil. Nem no nosso grupo a coisa era
fácil. Leon Hirzsman gostava muito da minha fotografia,
depois eu fiz um filme só com ele. Porque o meu
caminho foi trabalhar mais com o Paulo César,
o Joaquim, e salpicados os outros, o Glauber, o Leon,
com todo mundo eu trabalhei pelo menos uma vez. Mas
o fato é que agora eu estou trabalhando ainda
da mesma maneira.
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Fiz
agora um filminho, um vídeo, mas em beta, como
se fosse um filme mesmo, sobre o Garrincha, com o Paulo
César. Ele agora viajou lá para a Itália
para montar o filme. Eu achei o material muito bom,
quer dizer, eu ainda estou em forma, apesar da minha
idade. Normalmente eu já estaria aposentado.
Lá na França, uns amigos me perguntam:
"Mas ainda te deixam trabalhar lá no Brasil?
Aqui na França você não trabalharia
mais, estaria proibido." Eu digo que eu tento me
virar, senão não tenho como ganhar dinheiro.
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CC
- Você
falou de uma vertente influenciada pelo cinema neo-realista
italiano, que estaria mais preocupada com a questão
política do que com uma questão estética.
Vertente com a qual você, com o seu olhar de artista
plástico, não se identificava tanto. Mas parece
que mesmo buscando explorar mais a estética dos filmes,
não se deixava de lado uma certa ética na hora
de filmar.
Mário
Carneiro - Certo.
No nosso caso, a minha estética não era uma
estética formulada, era uma estética de uma
situação, a situação criava uma
estética. Porque a nossa briga era muito diferente.
Joaquim Pedro e eu, por exemplo. Joaquim nunca foi uma pessoa
que acreditasse que a ética resolvia as coisas como
era o caso do pessoal do CPC da UNE. Tinha o Carlos Estevão
que dizia que a estética era a ética. Se você
tivesse uma idéia social matriz fundamental, depois
o resto não interessava, a estética vinha desse
poder modificador que a imagem tivesse. Mas ele esquecia que
esse poder modificador tem uma origem, o olhar tem uma origem
de educação. Não dá para sair
de uma hora para outra com uma câmera na mão.
Tem gente que acha que dar para fazer isso. Mas o cinema é
uma junção de vários pedaços,
várias situações. Não sei se precisa
ter uma unidade como se imagina. Eu nunca tive muita preocupação
com esse desejo muito americano de unidade de tempo, de espaço,
uma coisa que vem do teatro. O que é extraordinário
no cinema é exatamente que ele não tem uma temporalidade
determinada, é o que você quiser. Subir no céu,
ser o ponto-de-vista de um ser humano conversando com o outro,
pode ser o ponto-de-vista de Deus, o ponto-de-vista da formiga,
você tem todas as magias possíveis. Nenhum cinema
do mundo deixou de passar por uma fase de elaboração
estética. O fato de eu ter feito gravura não
tirava nenhuma força política do meu olhar.
Eu era, como eu sou até hoje, uma pessoa de esquerda,
mais ou menos fundamentado, mas não sou um radical
doente. Não vou dizer que a estética russa era
a única do mundo e na época eu já estava
muito descrente do estalinismo. Eu não acreditava mais.
Isso porque eu tinha ido à Europa. Eu vivi nos anos
50, 60, 55. Eu sabia o que estava se passando lá, as
brigas do Sartre com o velho partidão comunista francês.
Sabia de todos os escândalos que estavam vindo à
tona. E quando eu desembarcava aqui estava todo mundo recebendo
ordem do Stalin como se fosse a última palavra de qualquer
coisa no mundo, era ridículo. Pelo menos eu não
podia aturar uma coisa dessas. Então eu evitei esse
convívio com a CPC da UNE. O pessoal ia lá mas
eu falava mal: "Eu não posso crer que vocês
não saibam ainda do que está se passando. Não
é bem assim. A revolução foi traída.
Agora, eu não vou deixar de ser comunista porque o
Stalin existe." Ele era muito esperto e os outros eram
intelectuais que se deixavam dominar. Ao mesmo tempo, foi
fundamental para a guerra anti-nazista que houvesse o Stalin,
ele era um militar. Mas aí deve ter muita mentira misturada
de um lado e de outro. Mas eu não sei, eu não
sou um arquivista, eu gosto de coisas na hora, gosto de fazer
o enquadramento. Cadê o Stalin? Está aí?
Não. Então (risos)...

CC
- Você
pode comentar um pouco a experiência de ter sido o fotógrafo
do Di?
Mário
Carneiro
- O Di foi um filme de acaso, mas um filme que marcou
muito a trajetória do Glauber porque ele tinha chegado
da Europa, tinha feito vários filmes lá, o Cabeças
cortadas, dois ou três. Mas o Glauber era muito
brasileiro demais para morar fora do Brasil, fazer filmes
fora, não funcionava direito. Ele estava numa fase
meio angustiado, querendo fazer um longa. Ele estava assim
buscando um assunto. Eu estava montando meu filme novo lá,
ele bateu na minha porta: "Morreu o Di Cavalcanti."
E aí eram oito horas da manhã, eu perguntava:
"E aí, Glauber?" E ele: "O enterro vai
sair, vamos fazer um filme sobre isso, você com o seu
olhar de pintor, sobre o último pintor modernista."
Eu topei: "Eu vou, mas vou ficar montando até
meio-dia, antes de meio-dia não dá para sair."
E nisso o Glauber começou a fazer a produção,
ele descolou três latas de filme, três rolinhos,
doze minutos. Nesse primeiro dia ele filmou doze minutos,
depois ele filmou mais umas coisas com o Nonato Estrela, que
são aqueles quadros voando, aquelas coisas, o Antônio
Pitanga falando, mas aí eu já estava fora. Eu
fiz o velório e o enterro, três rolinhos e acabou.
A coisa incrível é que o Glauber conseguiu com
esse filme ganhar um prêmio extraordinário, o
Prêmio Especial do Júri de Cannes. E isso reabriu
o caminho do Glauber para ele conseguir fazer o longa-metragem
depois. A nossa maneira de fazer o filme foi a mais doida
possível. Chovia pra burro, era um filme de 100 ASA,
não tinha luz. Eu tirei o filtro 85 e disse: "Está
chuvoso, vai ficar meio roxo, vai dar uma luz linda de enterro,
vamos sem filtro." O Glauber ficava muito impressionado
com essa coisa de tirar filtros. O Glauber tinha um lado meio
infantil, ele via mágica nas coisas. E todo o material
que eu fiz saiu perfeito. "Não vai levar o fotômetro
não? Que fotômetro, você sabe tudo de cor.
Bota uma lente 28 só, abre tudo e vamos em frente."
Nonato foi meu assistente. Mas o Glauber tinha aquela coisa,
ele ocupava muito espaço. Mesmo no velório,
ele já chegava metendo o vozeirão. O morto está
lá e ele está falando, falando. Era um espetáculo,
uma coisa fantástica a energia que o Glauber tinha
quando fazia as coisas. Mas desagradou profundamente a filha
do Di. Quando eu fui fazer um close do Di morto, a família
ficou irada, sobretudo por causa do jeito glauberiano de falar
alto, de aparecer. Ele tinha uma coisa meio intempestiva e
estava todo mundo jururu. Se a gente não tivesse chegado
lá o enterro teria sido uma coisa desastrosa de triste.
Porque o governo não mandou ninguém, a maioria
das pessoas tinha medo de ir lá porque o Di era um
homem de esquerda. Nenhum representante, nem do Ministério
da Educação, nem da Cultura, nada disso apareceu,
coisa nenhuma. Então tinha alguns amigos, todos artistas
plásticos. E aí o Glauber fez um fuzuê,
fez um filme muito interessante. A montagem é extraordinária
e aí ele conseguiu decolar vôo de novo. Pena
que as cópias que giram por aí são cópias
já de quarta geração, já perderam
a cor. Não se sabe mais como era aquele filme, no cinema
ele tinha uma força, uma coisa muito bonita mesmo.
É o único filme do mundo encerrado dento de
uma urna por uma ordem judicial, não existe nada equivalente
no mundo. Uma tristeza para a gente que isso aconteça.
CC
- Eu
quero dar o exemplo de dois filmes para você comentar
a fotografia. Apesar de você não ter sido o fotógrafo
de nenhum deles, acho que dar pra comentar. Um é o
Vidas Secas e o outro, que é mais contemporâneo,
é o Eu tu eles. Os dois se desenrolam no sertão
e a gente vê claramente a diferença das preocupações
no tratamento da luz. A luz estourada do Vidas Secas
marcava bem a violência e a opressão daquele
sol fortíssimo, terrível. Já no Eu
tu eles, a fotografia ameniza essa violência da
natureza, há um embelezamento, mais próximo
da fotografia de publicidade.
Mário
Carneiro
- Vidas Secas foi o tipo do filme bem característico
daquele período, baseado naquele romance do Graciliano
Ramos. O Nelson não tinha preocupações
estéticas. Ele chamou o Luiz Carlos Barreto para fazer
fotografia e o Rosa. O José Rosa era excelente câmera,
inclusive era sobrinho do Edgar Brazil, e foi quem de fato
segurou o filme, ele ficou o tempo todo filmando com o Nelson.
O Luiz Carlos fez a luz, disse "vamos estourar",
deu as diretrizes da luz, que eram as minhas diretrizes. Na
época eu já tinha feito O porto das caixas,
Arraial do Cabo... Então é um filme realmente
extraordinário porque o nome indica: vidas secas. O
Nelson inclusive foi uma vez, não conseguiu fazer,
porque choveu, ficou tudo verde, ele acabou fazendo Mandacaru
Vermelho. Então se bobeasse ele não fazia
de novo. Mas a seca firmou mesmo e ele faz esse filme que
é uma das obras-primas do Cinema Novo, esse período
é fantástico. Nesse mesmo ano nós vimos
Deus e o Diabo na Terra do Sol, Vidas Secas e Os
Fuzis. Veio um atrás do outro. Foi um momento glorioso
para o cinema brasileiro. Agora, atualmente, essa nova geração
dá uma impressão... Nós queríamos
mudar o Brasil e eu acho que essa turma que está trabalhando,
sobretudo o pessoal dessa Conspiração, dá
uma imagem de mistura de publicidade, como você disse,
e de cinema. Então é uma vontade de disfarçar
essa pobreza brasileira, retocar, para dizer: "Não,
a gente não é tão rico como os americanos,
mas que negócio é esse de Brasil pobre? Não,
não é assim, lá também tem sol,
também tem isso, tem aquilo." Então preferem
um céu azul, com umas nuvenzinhas, etc, àquela
luz crua e brava de lá. São duas visões.
Eu acho Eu tu eles um filme simpático, muito
simpático sobretudo porque ela é uma grande
atriz e os outros atores também eram bons. E a história
é muito boa. Agora, poderia ter sido um filme muito
melhor, claro, muito mais forte. Mas o cinema de hoje não
é assim. É um cinema globalizado, com muita
influência do cinema americano. A gente não pode
querer que as pessoas sejam o que não são. Eu
acho que a gente tem que aceitar, e tem bastante qualidade.
Eu acho que você pode fazer excelentes filmes e corrigir
esses defeitos, que são defeitos bobos, de querer tapar
o sol com peneiras coloridas. Mas eu espero que continuem
fazendo muitos filmes e que vá em frente esse negócio.
Não sou capaz também de morrer de admiração
não. É muito restrita a minha admiração.
CC
- Você
que tem uma visão bastante apurada da plasticidade
da imagem, você acha que com as tecnologias digitais
perde-se muito em qualidade?
Mário
Carneiro
- Eu já fiz alguns filmes documentários, usando
essas camerazinhas leves. Eu acho que elas têm grandes
qualidades, uma coisa de uma maleabilidade, de uma simplicidade.
Você não pode querer o que elas não dão.
Elas dão um tipo de sensibilidade, uma certa colorimetria
muito mais rudimentar do que a de cinema. Mas se você
souber usar isso respeitando a câmera, não querendo
que ela vire uma Arri maravilhosa, de última geração,
você pode ter muito bons resultados. E é uma
tendência que essa tecnologia se aprimorize muito. Você
já consegue bons resultados. Aquele filme sobre aqueles
cubanos, o Buena vista social club, aquele filme tem
momentos muito bons. Agora, o que não existe ainda
é uma estética feita sobre o meio, ainda é
muito rudimentar e está se iniciando, mas é
altamente promissor. Vai ser o meio que vai dominar. Por enquanto
muita gente reclama, dizem que enquanto houver filmes, eles
vão continuar filmando. Eu também acho que vão
continuar filmando, mas o custo do filme hoje em dia é
uma coisa, é insuportavelmente alto diante do que se
pode fazer com essas camerazinhas. Se você tiver uma
boa idéia, eu acho que é conveniente você
tentar fazer mesmo a baixo custo e com uma perda relativa
de um certo nível de qualidade. Eu acho que se podem
conseguir coisas muito boas. Quando eu fui ver o resultado
do nosso filme lá na Líder, que foi passado
de vídeo para película, eu vi os pedaços
de um filme feito lá no Nordeste, todo de altos contrastes,
pretos e brancos, chamado Assombrações de
Recife, e tinha alguns momentos muito bonitos. Nada impede
que se façam muitos testes, que se tome cuidado, se
faça uma boa preparação para chegar a
um resultado bom..
CC - Então
não há necessidade de um purismo quanto ao suporte?
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Mário
Carneiro - Esse purismo com relação
ao cinema, eu já dei aula na Gama Filho, os alunos
todos só queriam saber de fazer com filme, tinha
uma câmera ótima lá. Eu dizia: "Escuta,
tem uma camerazinha aqui maravilhosa, vamos fazer uns
testes, vamos usar". Eles diziam: "Não,
queremos filme, queremos ver o laboratório."
Quer dizer, é um saudosismo do cinema. Essa geração
é uma geração privilegiada, vocês
podem fazer o filme que vocês tiverem na cabeça
que não custa nada.
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Se ficar ruim, apaga, faz outro em cima. Em vez de pagar
laboratório, filme, espera, angústia.
Tudo isso você pode dispensar. Para filme de aprendizado
é uma coisa excepcional, você pode pirar
à vontade. Eu fico pensando, se o Glauber tivesse
tido esses elementos na mão na época dele,
ele tinha feito um filme por dia. Mas a gente não
tinha essa capacidade de fazer a coisa virar concretude
como hoje se tem. Então a minha opinião
é essa, vamos jogar nessa.
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CC
- O
que você pensa da parceria do cineasta com o artista
plástico, como, por exemplo, no caso de Buñuel
e Dalí?
Mário
Carneiro
- Buñuel era um diretor de cinema. Salvador Dalí
era pintor, ele só fez aqueles dois filminhos. No meu
caso, eu virei depois um diretor de fotografia mais do que
um pintor. Então eu segui o cinema mais como cineasta
mesmo. Salvador Dalí tinha boas idéias, ele
era um bom escritor, um escritor imaginoso, um delirante.
Então ele era muito bom para criar desafios de roteiro,
mas não era um esteta do cinema. A estética
era do Buñuel mais. Certas visualidades são
do Salvador Dalí. De repente formigas andando, coisas
que são puramente surrealistas mesmo, fazia parte da
estética surrealista cortar um olho, coisas assim de
dar um choque visual, produzir um efeito inesperado, que provocasse
uma reação..
CC - Você
já falou que a pintura influenciou o seu olhar de cineasta.
E o cinema tem influência na sua pintura?
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Mário
Carneiro - Tem, claro que tem. Mas é uma
coisa muito inconsciente. Agora que eu juntei todos
os quadros, mais da última geração,
porque eu nunca parei de pintar, sempre que eu viajava
eu levava minhas aquarelas. Mas agora eu tinha que fazer
essa exposição, então eu mandei
ver mesmo. E aí verifiquei que os meus quadros
têm um lado de roteiro de cinema, têm uma
historinha secreta. Eu gosto de ir desenvolvendo, de
repente umas figuras vão ficando claras.
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Então, uma maneira de pintar que pede um tempo
para ver o quadro. Se você quiser olhar os quadros
mesmo, você começa a descobrir uma dialética,
um diálogo mútuo que tem umas coisas características
da pintura mas que permitem uma leitura dentro da cabeça
de um tempo maior do que o tempo que a pintura normalmente
tem. Acho que tem uma influência, mas isso é
para os críticos descobrirem o que é isso,
eu sei que tem.
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